Associação investe em consórcios para crescer

Texto: Vanessa Brito
Fotos: Márcia Gouthier

Comprar bodes reprodutores de raça para apurar o rebanho era uma das maiores dificuldades dos pequenos caprinocultores do município de Nossa Senhora da Glória, localizado no agreste sergipano, a 140 km de Aracaju. Em março de 2003, vinte e três criadores da Associação Sertaneja de Caprinocultores (Asca) resolveram o problema ao constituir um consórcio inédito no País: o consórcio do bode.

Dois belos reprodutores imponentes, com sangue europeu e devidamente certificados, foram adquiridos por R$ 2 mil pelos consorciados: um da raça francesa saenen, e o outro da raça pardalpina, de origem s uíça. Desde então, os dois são responsáveis pela procriação e pela qualidade do leite dos 23 apriscos da Asca, cujo rebanho atual soma 3 mil animais. Cento e quarenta cabras e cabritos também foram adquiridos, nessa mesma ocasião, para aumentar o plantel dos associados. O consórcio do bode foi tão bem-sucedido, que ganhou espaço na mídia nacional. Criar consórcios para resolver outros desafios da Asca passou a ser uma ótima solução.

No momento, os caprinocultores dessa associação estão praticando o consórcio da ração balanceada, utilizada como complemento na alimentação dos animais e que aumenta a produção de leite. Antes, os criadores compravam um saco de trinta quilos por R$ 35,00. Agora, a ração vem direto da fábrica e sai por R$ 23,00, o saco, para os associados da Asca. "A vantagem é vender e comprar juntos", afirma Antônio de Andrade Lima, ex-dentista e professo r da Universidade Federal de Sergipe (UFS) aposentado, líder e primeiro presidente da Asca. "Quando fundamos a Asca, ninguém criava cabras. Começamos timidamente com três animais", lembra Antônio.

Os próximos consórcios da Associação já estão planejados. A mesma fórmula será aplicada na montagem de um frigorífico na cidade, onde serão vendidas carne fresca e lingüiça, e na implantação do selo de certificação dos produtos da Associação. Graças à união e à perseverança dos pequenos criadores de cabras de Nossa Senhora da Glória e aos consórcios do bode e derivados, a Asca se tornou uma referência em caprinocultura brasileira.

Nordestino Empreendedor

O Sebrae em Sergipe está atuando na região de Nossa Senhora da Glória desde 1998, quando era parceiro do Projeto Xingó. Mas foi no ano 2000 que a instituição começou a levar cursos sobre associativismo, empreendedorismo, entre outros, ao meio rural.

O apoio à Asca foi assumido em 2001 pelo Sebrae no Estado. "Era uma proposta difícil, pois em Sergipe não havia tradição de criação de cabras", afirma Antônio Cardoso de Lisboa, técnico da Unidade de Agronégocios e gestor do Projeto Aprisco no Sebrae em Sergipe. Nessa época, a ovino e bovinocultura imperavam no campo. Foi um trabalho árduo chegar até a situação atual, diz ele. "O nordestino é muito empreendedor", justifica. Cardoso cita o técnico José Vieira Moura, do Sebrae no Rio Grande do Norte, como um dos que mais contribuíram para o sucesso do projeto da associação e do consórcio do bode.

No momento, o Sebrae em Sergipe está finalizando o processo de solicitação de registro dos produtos da Asca no Serviço de Inspeção Estadual (SIE). Cardoso acredita que, até o final do ano, os associados terão essa aguardada certificação em mãos. "Tenho certeza que a Asca e seus produtos vão se destacar bastante no setor em ter mos nacionais", profetiza o técnico.

Para Cardoso, faltam apenas dois elementos para a Asca atingir seus objetivos mais rapidamente: água e acesso ao crédito. Infelizmente, a transposição do Rio São Francisco ainda não favoreceu a região de Santa Maria da Glória, diz ele. A água só está chegando até Canindé, município vizinho a 100 km.

Quanto aos bancos, Cardoso considera que ainda não perceberam o potencial da caprinocultura nordestina. "Os bancos teriam de oferecer linhas de financiamentos para os criadores de cabras para que essa atividade demonstre toda a sua força", analisa o técnico.

Como surgiu o consórcio do bode

Ao longo do processo de consolidação da Asca, alguns associados e futuros caprinocultores queriam entrar na atividade, mas não tinham recursos para comprar os animais ou para contratar um financiamento no banco, conta Cardoso. Foi durante um m ódulo do curso de associativismo do Sebrae que surgiu a idéia do consórcio do bode. "Tudo foi feito na base da confiança mútua", ressalta. Dois grupos com dez consorciados cada um foram constituídos. Os consorciados contribuíam com R$ 30,00 ou R$ 50,00 por mês. A arrecadação mensal era depositada numa conta de poupança. Ao final de um ano, o total acumulado era de R$ 3 mil. Um empresário de Instância, município vizinho a Nossa Senhora da Glória, estava vendendo seu plantel, pois desistira da caprinocultura. Desse modo, surgiu a oportunidade de o consórcio adquirir o lote constituído de dois bodes de sangue europeu, mais 140 cabras. O preço total era de R$ 12 mil. Os consorciados deram a entrada com os R$ 3 mil e parcelaram o restante em cinco parcelas de R$ 1,8 mil, que foram pagas rigorosamente na data combinada.

Da bovinocultura para a caprinocultura

A história da Asca é também curiosa. Seus associados se encontra ram pela primeira vez numa capacitação sobre bovinocultura, ministrada pelo Sebrae, em Nossa Senhora da Glória, em outubro de 2000. "Foi um consultor do Sebrae quem abriu os olhos da gente para essa atividade", conta Marcos Rogério da Silva, segundo e atual presidente da associação, referindo-se a Veronaldo Souza de Oliveira. Era uma opção óbvia, diz Rogério. A criação de cabras e bode foi uma tradição no sertão sergipano, há mais de duzentos anos. Várias gerações de sergipanos foram criadas bebendo leite de cabra e comendo carne de cabrito, bode e ovelha. "Esses animais são perfeitos para o sertão, pois comem de tudo, bebem pouca água, não são caros e têm ciclo de vida curto", esclarece. A Asca foi criada em 24/11/2000 com trinta e cinco associados. Alguns desistiram ao longo do caminho e das dificuldades. "É muito bom ser caprinocultor, mas isoladamente não daria certo. As dificuldades não seriam contornadas", afirma Antônio. Em março de 2001, o Sebrae ministrou o primeiro curso de caprinocultura em Nossa Senhora da Glória, a pedido da Asca. "O Sebrae gosta de apoiar pessoas organizadas", reflete o líder da associação. Segundo Antônio, o Sebrae promoveu uma verdadeira "onda de capacitação" e de viagens técnicas, depois do primeiro curso. Os associados da Asca foram levados a outras regiões do Nordeste para conhecer as boas práticas da caprinocultura. Eles visitaram o maior produtor de leite de cabra do País, que se encontra no Rio Grande do Norte. "A cabra é tão sertaneja quanto a gente", argumenta Rogério. Gado leiteiro e de corte foram introduzidos na região, nas últimas quatro décadas. "Não sei por que, nós temos a mania de ficar tentando praticar aqui o que se faz no Sul", compara. "Muitos de nós haviam fracassado com as vacas", revela Rogério. Antônio reforça o que Rogério diz: "vivemos num lugar seco e temos que pensar como lugar seco. Não devemos perder dinheiro e tempo com produtos da zona úmida", enfatiza. Se não fosse a opção pela caprinocult ura e a criação da Asca, a maioria dos associados ainda trabalharia como vaqueiro e estaria recebendo cerca de R$ 10,00 por dia de trabalho, segundo Adenilson Batista Santos, um dos associados. Ele cria 23 animais em 23 hectares. "As cabras são mais baratas e lucrativas", argumenta. Enquanto uma vaca custa R$ 1.500,00, em média, uma cabra custa R$ 300,00. O litro de leite de cabra é vendido para o laticínio por R$ 1,00/litro. Adenilson diz que está produzindo 20 litros de leite/dia, produzidos por 12 cabras. Ele estima que cerca de 120 pessoas sobrevivem, atualmente, dos negócios da cabra em Nossa Senhora da Glória.


Melhor do que gado bovino

Lidar com bode e cabra é mais fácil do que com gado. "Não precisa apear, nem amarrar", explica José Adalmir Barros, o Pitu, outro associado da Asca. O grande desafio, no entanto, é vigiar o rebanho dócil, porém arisco, que vive buscando um jeito de ultrapassar as cercas com vários fios de arame. "Cabra é um bicho que gosta de liberdade", diz Pitu. Bode, então, nem se fala. A vigília tem de ser mais do que constante. Em hipótese alguma, o macho pode permanecer no mesmo aprisco das cabras, pois seu cheiro forte compromete a qualidade do leite. Por esse motivo, os bodes são mantidos a quilômetros de distância das fêmeas e só se aproximam delas na época do cio. Se um bode escapa e chega perto das cabras em lactação ou sendo ordenhadas, é prejuízo na certa para o caprinocultor. Todo o leite tem de ser descartado. "Ninguém consegue beber", assegura Pitu. A expressão "bode expiatório" é explicada por ele. Trata-se do culpado pela fuga do rebanho ou de parte dele. Ao notar a fragilidade de uma cerca, ele pisa nos arames soltos e assim facilita a libertação dos animais presos. Como é o último a fu gir, quase sempre fica só para a expiação... "Cerca paracabra e bode tem de ter no mínimo sete fios de arame", diz Pitú. Essa é a grande despesa do caprinocultor, segundo ele. Uma cerca de 500 metros, por exemplo, está custando R$ 140,00. Apesar disso, ele prefere cuidar de cabras, cabritos e bode. Eles são muito amorosos e se aconchegam às pessoas, revela. "Minha vida mudou 100%. Antes, trabalhava de peão; hoje cuido da família só com o rebanho e não trabalho mais ara os outros", diz, feliz. Sua propriedade tem 15 "tarefas", que equivalem a 5 hectares. No aprisco de Pitu, ivem 22 cabras, 9 cabritinhas e 1 cabritinho. "Minhas cabras produzem de 15 a 16 litros de leite por dia", afirma.