Consumo de carnes vermelhas e sua relação com a política de segurança alimentar e nutricional


Silvana Gonçalves Brito de Arruda
Nutricionista, Doutoranda do Curso de Pós-Graduação em Nutrição da UFPE

 Roberto Germano Costa
Zootecnista, Professor do Departamento de Agropecuária do campus IV da UFPB

Telma Maria Barreto Biscontini
Nutricionista, Professora do Departamento de Nutrição da UFPE

1 Introdução

A carne, de um modo geral, pode ser definida como qualquer tecido animal que pode ser utilizado como alimento (Graner, 1989). Juntamente com o ovo e o leite, constitui-se uma fonte básica de proteína animal na alimentação humana. É um alimento de elevada qualidade nutricional devido a sua função plástica, influenciando na formação de novos tecidos orgânicos e na regulação de processos fisiológicos, além de fornecer energia. Seu valor nutritivo é inquestionável, uma vez que além das proteínas, contém na sua composição química ácidos graxos essenciais, vitaminas do complexo B e minerais.

As carnes podem ser subdivididas em carnes “vermelhas” e “brancas”. Dentre as primeiras estão incluídas principalmente a carne bovina, suína, ovina e caprina. A proporção em que essas carnes entram na alimentação varia bastante de país para país, contudo as carnes vermelhas fazem parte do hábito alimentar das pessoas de toda parte do mundo.

Apesar das características nutricionais relevantes encontradas no tecido muscular animal, é comum a associação entre o consumo alimentar de carne e a ocorrência de uma série de distúrbios circulatórios, devido a sua composição química que contém um teor de ácidos graxos saturados e colesterol considerável. Por outro lado, a coronariopatia é a maior causa de óbito nos EUA e é responsável por 80% das mortes cardíacas. Devido ao grande número de mortes prematuras por doenças coronarianas, desenvolveram-se muitas pesquisas nas áreas de identificação e prevenção, acumulando-se uma literatura monumental a partir de estudos epidemiológicos, laboratoriais, clínicos, prospectivos e intervencionistas, com objetivo de esclarecer porque apenas certos indivíduos desenvolvem coronariopatias, particularmente quando estas levam à morte prematura (Mahan & Arlin, 1995).

Dados epidemiológicos provenientes de pesquisas em todo o mundo identificam de forma consistente os níveis sangüíneos de lipídios e fatores ambientais, especificamente fatores dietéticos, que caracterizam populações com elevada incidência de coronariopatia, corroborados por estudos clínicos, laboratoriais e em animais, entretanto estudos com indivíduos não foram uniformes devido a heterogeneidade dos fatores de risco e suas interações. Embora os resultados sejam inconclusivos ou contraditórios, há uma associação de altos níveis de lipídios séricos com a incidência de aterosclerose e a morbidade e mortalidade por coronariopatia. Baseado em experimentos com animais e humanos, estudos populacionais e clínicos, evidenciaram que a intervenção redutora dos níveis de colesterol sérico é fundamental no tratamento de pacientes com doença arterial coronariana (Novazzi, 1993; Colesterol, 1994; National Cholesterol Education Program, 1994).

Uma vez que o consumo de carnes faz parte do hábito alimentar da população brasileira, faz-se necessários estudos comparativos mais acurados da proporção dos ácidos graxos presentes em diferentes espécies animais, visto que com o aumento no consumo das gorduras totais na alimentação, elevam-se, concomitantemente, os níveis de ácidos graxos saturados e a ocorrência de obesidade nos indivíduos.

Em função da relevância deste tema, houve uma mudança no perfil de produção de carnes gordas, por intermédio da seleção genética, manejo e alimentação adequadas a produção de carnes magras. Entretanto, existem diversos fatores que interferem na composição química da carne, dentre os quais, sexo, raça, espécie animal, idade, castração, tipo de músculo, entre outros (Pardi, 1995).

Apesar de existirem estudos demonstrando os teores de lipídios totais e ácidos graxos entre algumas espécies animais, são escassas ou talvez inexistentes as pesquisas que contemplem a composição lipídica de músculos caprinos cozidos. Não foi encontrado também na literatura o registro da influência do consumo da carne caprina nos níveis séricos de colesterol e triglicerídios, de onde decorre a necessidade premente de investigações científicas para observar esse fato.

No Brasil, a caprinocultura é uma atividade que vem ganhando o apoio do governo, por ter despertado para a necessidade da fixação do homem ao campo, encontrando na atividade caprina uma alternativa viável para o setor agropecuário, devido à facilidade de adaptação dessa espécie animal ao meio ambiente em que predomina a vegetação de caatinga, caracterizado por clima semi-árido, fator esse que dificulta a pecuária de animais de grande porte (EMBRAPA, 1998, Norman, 1985).

Segundo Oliveira e Lima (1994), os caprinos e ovinos tropicais, largamente difundidos no Nordeste Brasileiro, têm aumentado o seu contingente populacional, graças a sua rusticidade e adaptação ao meio ambiente que predomina a vegetação de caatinga. O Nordeste semi-árido devido as suas características mesológicas, parece estar vocacionado para a pecuária de pequenos animais, encontrando na criação de caprinos uma grande oportunidade de negócios (Rodrigues, 1998).

Considerando esses aspectos, o investimento na caprinocultura pode representar uma atividade de grande alcance social para a Região Nordeste, proporcionando a geração de emprego e renda para o nordestino, contribuindo dessa forma para a segurança alimentar e um novo milênio sem fome.

2. Consumo de carne x caprinocultura x segurança alimentar

O Brasil, a partir de 1986, adotou um conceito de Segurança Alimentar amplo, que inclui o acesso universal aos alimentos, o aspecto nutricional e as questões relacionadas à composição, à qualidade e ao seu aproveitamento biológico, fazendo com que na Conferência Nacional de Segurança Alimentar em 1994, esse novo conceito fosse consolidado (Ministério da Saúde, 2000).

A relação entre o consumo de carne e segurança alimentar passa em primeiro lugar pelo conceito de segurança alimentar e nutricional que extrapola o aspecto químico de absorção de nutrientes, e físico quando se enfoca a apropriação do alimento, chegando ao direito de acesso aos recursos e meios para produzir e/ou adquirir alimentos seguros e saudáveis, que propicie uma alimentação adequada aos hábitos de cada região.

De acordo com Valente (1997), faz parte do Direito à alimentação ter informações corretas sobre o conteúdo dos alimentos, sobre práticas alimentares e estilos de vida saudáveis que promovam a saúde e reduzam os riscos causados por uma alimentação inadequada. É neste contexto que se insere a importância de se pesquisar os componentes químicos da carne vermelha das espécies animais exploradas economicamente, visando encontrar teores de colesterol mais baixos e melhor relação na proporção de ácidos graxos saturados:mono:polinsaturados, que possa ser utilizado na alimentação humana, respeitando o hábito alimentar de consumir carnes vermelhas e ao mesmo tempo reduzindo o risco alimentar.

Existem sete princípios básicos de segurança alimentar também denominados por alguns autores como “Sete chaves da Segurança Alimentar”. O objetivo desses sete princípios é apresentar à sociedade um conjunto de ações para a definição e encaminhamento de uma política de segurança alimentar. Neste trabalho, o principal objetivo é observar qual contribuição que a caprinocultura pode oferecer para a segurança alimentar, dentro desse modelo proposto.

2.1. Primeiro Princípio: “O Desafio de Construir a Família Brasil

Este é um princípio mais abrangente e primordial como ponto de partida na conscientização da nação brasileira acerca da gravidade social, cultural e econômica da fome, partindo do pressuposto de que a política de segurança alimentar deve ser elaborada à partir da parceria entre governo e comunidade, para, desta forma, garantir continuidade das ações propostas.

Investir no agribusiness, oferecendo condições para a fixação do homem no campo através da implementação da caprinocultura, atende de certa forma a este princípio de segurança alimentar, através de um programa que envolva desde a valorização do produto no mercado até a oferta de estrutura para produção e comercialização. Ao realizar essas ações, o governo, juntamente com as entidades privadas parceiras, estará promovendo o acesso e a disponibilidade de um tipo de alimento rico em proteínas de alto valor biológico e de baixo nível de gorduras totais, contribuindo simultaneamente no combate a fome e ao grave problema de saúde pública que se tornou à obesidade, na atualidade, estando coerente com o conceito de segurança alimentar no sentido de assegurar, no mercado ou na comunidade local, o acesso de cada família ao alimento, o que requer operações capilares de mercado, existência de infra-estrutura e um livre fluxo de informações.

Neste sentido, a caprinocultura não é a “salvadora da pátria”, mas tem um valor inquestionável ao explorar uma atividade que apresenta larga difusão no Nordeste Brasileiro, alcançando cerca de 10,2 milhões de cabeças, perfazendo um total de 94% do efetivo nacional (FIBGE, 1997).

2.2. Segundo Princípio: “Estabilidade Econômica para o Desenvolvimento Social”.

Existe uma relação muito estreita entre investir na cadeia produtiva da caprinocultura e a estabilidade econômica voltada para o desenvolvimento social, uma vez que tal investimento, provavelmente, resultará em um aumento de produção e, por conseguinte, na recuperação do poder de compra do trabalhador rural, através da redução do custo dos seus produtos, partindo do pressuposto da restauração da capacidade de investimento, e da valorização desta atividade agroindustrial. Tudo isso deve visto dentro de um contexto macro, onde a contrapartida governamental é a estabilização da economia através de um plano efetivo de combate à inflação e a estabilização da moeda, processo este iniciado pelo “Plano Real”, porém padecendo ainda de ações no plano social.

2.3. Terceiro Princípio: “Aumento do Poder Real de Compra”.

Apesar da característica específica deste princípio, já que analisar a recuperação do poder de compra dos salários dentro de uma visão macroeconômica exige mudança nas políticas salariais; investimentos na caprinocultura exercem uma influência indireta neste princípio ao injetar tecnologias específicas com o propósito de melhorar e aumentar a produção. Desta forma, a redução dos custos de produção e conseqüente redução dos preços das carnes caprinas e seus derivados, levam a um real aumento do poder de compra do consumidor.

2.4 Quarto Princípio: “Elevação das Oportunidades de Consumo de Alimentos”.

O acesso aos alimentos com elevado valor nutricional tem sido restrito a população que detém um bom poder aquisitivo, deixando a maior parcela dos brasileiros consumindo alimentos essencialmente energéticos. Esse quadro é ainda mais grave quando se trata da população da região Nordeste.

Para solucionar um problema de tamanha dimensão é necessário um programa de longo prazo que possa trazer essa população ao mercado de consumo de alimentos, bem como a atuação dos programas de caráter assistencialista, o que entendemos como “socorro alimentar”, para aqueles que estão em situação de miséria absoluta.

Dentro desta realidade é possível o estabelecimento de parcerias entre cooperativas de produtores de caprinos e prefeituras para incluir nos programas de alimentação para crianças e nutrizes, bem como na merenda escolar, a carne caprina e seus derivados, como fonte protéica de alto valor biológico. Desta forma o governo estaria fornecendo uma dupla contribuição na segurança alimentar da sociedade brasileira Nordestina. Por um lado, garantindo a comercialização, ou seja, ampliando o mercado da carne caprina, por outro lado, investindo nesses programas emergenciais, sem perder de vista a necessidade de avançar desse modelo assistencialista para reais transformações sociais.

Apesar de ser evidente o potencial de aumento do consumo de carne caprina, estatísticas apontam para um baixo nível de consumo “per capta” por ano no nordeste, e mais ainda em todo o Brasil, em que pese ser hábito do nordestino, consumir, semanalmente, carne caprina ou ovina

2.5 Quinto Princípio: “Valorização e Expansão da Produção Agropecuária”.

Este princípio é o que mais se identifica com as peculiaridades da caprinocultura, considerando que ao se  investir neste setor agropecuário, os objetivos propostos por Wedekin (1993), citado por Nardin et al. (1997), serão prontamente atendidos, ou seja:

a)    reconstituição da renda do agricultor, redução da migração inter-regional, interiorização da classe média rural;

b)    Elevação dos padrões tecnológicos das atividades agropecuárias, reduzindo os custos de produção dos alimentos e

c)     Respeito às condições naturais de equilíbrio ambiental, baseados na definição de “Desenvolvimento Sustentável” proposto pela FAO.

Com o advento das mudanças nas relações comerciais e internacionais, que propiciou a abertura dos mercados, a atividade agropecuária, assim como os demais setores da economia nacional, vêm buscando otimizar as suas unidades produtivas a fim de tornarem-se mais competitivas (Medeiros, 2001). Neste contexto, torna-se imperativo a caprinocultura nacional e, em especial à nordestina, a obtenção de uma maior eficiência produtiva, resultando na valorização e expansão dessa atividade

A título de ilustração desta valorização, uma publicação recente do Banco do Nordeste citada por Lima (1999) faz uma análise comparativa entre um rebanho caprino e um bovino e demonstra através de números, a viabilidade econômica da caprinocultura para as condições de semi-árido. Essa projeção é feita com base em um rebanho inicial de 10 vacas, que após 12 anos, o fazendeiro teria 64 fêmeas, sendo 31 vacas, 12 bezerras, 10 garrotas e 9 novilhas. Já um rebanho com 10 cabras, logo no primeiro ano seriam 18 animais e após 12 anos, 820 animais fêmeas. Do ponto de vista financeiro, o rebanho de vacas gerariam um estoque financeiro de R$ 43.700,00, enquanto que as cabras gerariam um capital da ordem de R$ 93.000,00. Avaliando-se as condições climáticas e de pastagens que dispõe a região, além do tamanho da maioria das propriedades rurais, dentre outras condições, parece estar bem clara a vantagem de se valorizar e expandir a produção caprina.

2.6. Sexto Princípio: “Redução dos Custos de Comercialização e Distribuição de Alimentos”.

A parceria entre prefeituras, cooperativas e associações  de caprinocultores para a inclusão da carne caprina e seus derivados nos programas emergenciais é uma proposta que pode ser incluída dentre as ações destinadas a aumentar a eficiência  do processo de comercialização e distribuição, evitando a figura do “atravessador”, que é responsável pela elevação dos custos de comercialização e distribuição de alimentos.

Um grande problema que afeta a sazonalidade na oferta da carne caprina está relacionado com o aspecto climático da Região Nordeste, que possui um clima semi-árido com baixos níveis pluviométricos. Esse fator é primordial para obtenção de pastagens para os animais durante o período de estiagem, e que pode ser solucionado através da formação de estoques reguladores anuais, permitindo a oferta linear de carne caprina e a redução da sazonalidade dos preços.

2.7. Sétimo Princípio: “Agregação de Valor e Interiorização do Desenvolvimento”.

A realização de pesquisas que definam e divulguem o valor nutricional da carne caprina seguramente vai agregar valor ao produto, em virtude do consumidor atual ser mais seletivo e informado, buscando alimentos nutritivos e que não prejudiquem a sua saúde. Além disso, pesquisas dessa natureza geram uma contribuição para o fortalecimento da política de rotulagem dos alimentos, uma vez que no Brasil existem poucos dados sobre colesterol e ácidos graxos em carnes, embora recentemente tenha sido publicada, no Diário Oficial da União, a Resolução no. 94, constando o Regulamento Técnico referente à Rotulagem Obrigatória de Alimentos e Bebidas e Embalados (ANVISA, 2000).

3 Considerações Finais

A Região Nordeste por sua vocação natural para a caprinocultura pode tornar-se um centro de excelência nesta área, atendendo dessa forma aos propósitos de fortalecimento do interior do país, ou seja, a realização de investimentos no local onde as pessoas estão situadas, evitando, assim, a sua migração desordenada.

Considerando os relatos de Sousa (1999), está no agribusiness uma das saídas, à médio prazo, para acelerar a integração da produção agropecuária nordestina à economia regional e nacional, além do fato de oferecer uma grande oportunidade de descentralização agroindustrial. Até mais importante do que isso tudo, depende do agribusiness a Segurança Alimentar de uma região, pedra fundamental de seu desenvolvimento como sociedade justa. A visão é a de que a vocação, a capacitação e os recursos brasileiros no agribusiness podem, se bem administrados, contribuir de forma decisiva para vencer os quatro grandes desafios da sociedade nordestina: o desenvolvimento sustentado; a integração à economia nacional e internacional; a melhoria da distribuição de renda através da desconcentração de pólos de desenvolvimento e a preservação do ambiente.

Essa missão, penosa, ambiciosa e difícil, divide-se em duas redes de tarefas. A primeira, e a maior delas, é a de conscientizar os segmentos decisórios do país - os políticos, os empresários, os trabalhadores organizados, os acadêmicos, os líderes da comunicação - para a importância e complexidade do sistema de agribusiness, a relevância de seu papel no desenvolvimento econômico e social e a necessidade de tratá-lo sistematicamente, sem o que se torna impossível otimizá-lo. A segunda é de torná-lo conhecido: é o desconhecimento mais elementar de seu funcionamento e dos seus elementos mais importantes, que impede a visão de conjunto e das importantes interações que ocorrem dentro do sistema.

As peculiaridades geográficas do Nordeste brasileiro lhe caracterizam como região vocacionada para produção de caprinos, sobretudo pela importância sócio-econômica que ela representa. Entretanto, observa-se que existe uma lenta evolução na dinâmica produtiva da atividade e ao mesmo tempo, pelas novas possibilidades proporcionadas pela abertura de mercados, há uma necessidade de incrementar as ações voltadas para uma maior eficiência nos núcleos produtivos. Além da melhoria nos índices técnicos, urge estudar e conhecer as inter-relações da sua cadeia produtiva, corrigindo e norteando a atividade para inseri-la no âmbito do agronegócio, tornando a produção de carne e subprodutos caprinos, definitivamente um propulsor do desenvolvimento da agropecuária nacional.

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23/09/2001