1
Introdução
A
carne, de um modo geral, pode ser definida como qualquer tecido animal
que pode ser utilizado como alimento (Graner, 1989). Juntamente com
o ovo e o leite, constitui-se uma fonte básica de proteína animal
na alimentação humana. É um alimento de elevada qualidade nutricional
devido a sua função plástica, influenciando na formação de novos tecidos
orgânicos e na regulação de processos fisiológicos, além de fornecer
energia. Seu valor nutritivo é inquestionável, uma vez que além das
proteínas, contém na sua composição química ácidos graxos essenciais,
vitaminas do complexo B e minerais.
As
carnes podem ser subdivididas em carnes “vermelhas” e “brancas”. Dentre
as primeiras estão incluídas principalmente a carne bovina, suína,
ovina e caprina. A proporção em que essas carnes entram na alimentação
varia bastante de país para país, contudo as carnes vermelhas fazem
parte do hábito alimentar das pessoas de toda parte do mundo.
Apesar
das características nutricionais relevantes encontradas no tecido
muscular animal, é comum a associação entre o consumo alimentar de
carne e a ocorrência de uma série de distúrbios circulatórios, devido
a sua composição química que contém um teor de ácidos graxos saturados
e colesterol considerável. Por outro lado, a coronariopatia é a maior
causa de óbito nos EUA e é responsável por 80% das mortes cardíacas.
Devido ao grande número de mortes prematuras por doenças coronarianas,
desenvolveram-se muitas pesquisas nas áreas de identificação e prevenção,
acumulando-se uma literatura monumental a partir de estudos epidemiológicos,
laboratoriais, clínicos, prospectivos e intervencionistas, com objetivo
de esclarecer porque apenas certos indivíduos desenvolvem coronariopatias,
particularmente quando estas levam à morte prematura (Mahan &
Arlin, 1995).
Dados
epidemiológicos provenientes de pesquisas em todo o mundo identificam
de forma consistente os níveis sangüíneos de lipídios e fatores ambientais,
especificamente fatores dietéticos, que caracterizam populações com
elevada incidência de coronariopatia, corroborados por estudos clínicos,
laboratoriais e em animais, entretanto estudos com indivíduos não
foram uniformes devido a heterogeneidade dos fatores de risco e suas
interações. Embora os resultados sejam inconclusivos ou contraditórios,
há uma associação de altos níveis de lipídios séricos com a incidência
de aterosclerose e a morbidade e mortalidade por coronariopatia. Baseado
em experimentos com animais e humanos, estudos populacionais e clínicos,
evidenciaram que a intervenção redutora dos níveis de colesterol sérico
é fundamental no tratamento de pacientes com doença arterial coronariana
(Novazzi, 1993; Colesterol, 1994; National Cholesterol Education Program,
1994).
Uma
vez que o consumo de carnes faz parte do hábito alimentar da população
brasileira, faz-se necessários estudos comparativos mais acurados
da proporção dos ácidos graxos presentes em diferentes espécies animais,
visto que com o aumento no consumo das gorduras totais na alimentação,
elevam-se, concomitantemente, os níveis de ácidos graxos saturados
e a ocorrência de obesidade nos indivíduos.
Em
função da relevância deste tema, houve uma mudança no perfil de produção
de carnes gordas, por intermédio da seleção genética, manejo e alimentação
adequadas a produção de carnes magras. Entretanto, existem diversos
fatores que interferem na composição química da carne, dentre os quais,
sexo, raça, espécie animal, idade, castração, tipo de músculo, entre
outros (Pardi, 1995).
Apesar
de existirem estudos demonstrando os teores de lipídios totais e ácidos
graxos entre algumas espécies animais, são escassas ou talvez inexistentes
as pesquisas que contemplem a composição lipídica de músculos caprinos
cozidos. Não foi encontrado também na literatura o registro da influência
do consumo da carne caprina nos níveis séricos de colesterol e triglicerídios,
de onde decorre a necessidade premente de investigações científicas
para observar esse fato.
No
Brasil, a caprinocultura é uma atividade que vem ganhando o apoio
do governo, por ter despertado para a necessidade da fixação do homem
ao campo, encontrando na atividade caprina uma alternativa viável
para o setor agropecuário, devido à facilidade de adaptação dessa
espécie animal ao meio ambiente em que predomina a vegetação de caatinga,
caracterizado por clima semi-árido, fator esse que dificulta a pecuária
de animais de grande porte (EMBRAPA, 1998, Norman, 1985).
Segundo
Oliveira e Lima (1994), os caprinos e ovinos tropicais, largamente
difundidos no Nordeste Brasileiro, têm aumentado o seu contingente
populacional, graças a sua rusticidade e adaptação ao meio ambiente
que predomina a vegetação de caatinga. O Nordeste semi-árido devido
as suas características mesológicas, parece estar vocacionado para
a pecuária de pequenos animais, encontrando na criação de caprinos
uma grande oportunidade de negócios (Rodrigues, 1998).
Considerando
esses aspectos, o investimento na caprinocultura pode representar
uma atividade de grande alcance social para a Região Nordeste, proporcionando
a geração de emprego e renda para o nordestino, contribuindo dessa
forma para a segurança alimentar e um novo milênio sem fome.
2.
Consumo de carne x caprinocultura x segurança alimentar
O
Brasil, a partir de 1986, adotou um conceito de Segurança Alimentar
amplo, que inclui o acesso universal aos alimentos, o aspecto nutricional
e as questões relacionadas à composição, à qualidade e ao seu aproveitamento
biológico, fazendo com que na Conferência Nacional de Segurança Alimentar
em 1994, esse novo conceito fosse consolidado (Ministério da Saúde,
2000).
A
relação entre o consumo de carne e segurança alimentar passa em primeiro
lugar pelo conceito de segurança alimentar e nutricional que extrapola
o aspecto químico de absorção de nutrientes, e físico quando se enfoca
a apropriação do alimento, chegando ao direito de acesso aos recursos
e meios para produzir e/ou adquirir alimentos seguros e saudáveis,
que propicie uma alimentação adequada aos hábitos de cada região.
De
acordo com Valente (1997), faz parte do Direito à alimentação ter
informações corretas sobre o conteúdo dos alimentos, sobre práticas
alimentares e estilos de vida saudáveis que promovam a saúde e reduzam
os riscos causados por uma alimentação inadequada. É neste contexto
que se insere a importância de se pesquisar os componentes químicos
da carne vermelha das espécies animais exploradas economicamente,
visando encontrar teores de colesterol mais baixos e melhor relação
na proporção de ácidos graxos saturados:mono:polinsaturados, que possa
ser utilizado na alimentação humana, respeitando o hábito alimentar
de consumir carnes vermelhas e ao mesmo tempo reduzindo o risco alimentar.
Existem
sete princípios básicos de segurança alimentar também denominados
por alguns autores como “Sete chaves da Segurança Alimentar”.
O objetivo desses sete princípios é apresentar à sociedade um conjunto
de ações para a definição e encaminhamento de uma política de segurança
alimentar. Neste trabalho, o principal objetivo é observar qual contribuição
que a caprinocultura pode oferecer para a segurança alimentar, dentro
desse modelo proposto.
2.1. Primeiro Princípio: “O Desafio de Construir a Família Brasil”
Este
é um princípio mais abrangente e primordial como ponto de partida
na conscientização da nação brasileira acerca da gravidade social,
cultural e econômica da fome, partindo do pressuposto de que a política
de segurança alimentar deve ser elaborada à partir da parceria entre
governo e comunidade, para, desta forma, garantir continuidade das
ações propostas.
Investir
no agribusiness, oferecendo condições para a fixação do homem
no campo através da implementação da caprinocultura, atende de certa
forma a este princípio de segurança alimentar, através de um programa
que envolva desde a valorização do produto no mercado até a oferta
de estrutura para produção e comercialização. Ao realizar essas ações,
o governo, juntamente com as entidades privadas parceiras, estará
promovendo o acesso e a disponibilidade de um tipo de alimento rico
em proteínas de alto valor biológico e de baixo nível de gorduras
totais, contribuindo simultaneamente no combate a fome e ao grave
problema de saúde pública que se tornou à obesidade, na atualidade,
estando coerente com o conceito de segurança alimentar no sentido
de assegurar, no mercado ou na comunidade local, o acesso de cada
família ao alimento, o que requer operações capilares de mercado,
existência de infra-estrutura e um livre fluxo de informações.
Neste
sentido, a caprinocultura não é a “salvadora da pátria”, mas tem um
valor inquestionável ao explorar uma atividade que apresenta larga
difusão no Nordeste Brasileiro, alcançando cerca de 10,2 milhões de
cabeças, perfazendo um total de 94% do efetivo nacional (FIBGE, 1997).
2.2. Segundo Princípio: “Estabilidade Econômica para o Desenvolvimento
Social”.
Existe
uma relação muito estreita entre investir na cadeia produtiva da caprinocultura
e a estabilidade econômica voltada para o desenvolvimento social,
uma vez que tal investimento, provavelmente, resultará em um aumento
de produção e, por conseguinte, na recuperação do poder de compra
do trabalhador rural, através da redução do custo dos seus produtos,
partindo do pressuposto da restauração da capacidade de investimento,
e da valorização desta atividade agroindustrial. Tudo isso deve visto
dentro de um contexto macro, onde a contrapartida governamental é
a estabilização da economia através de um plano efetivo de combate
à inflação e a estabilização da moeda, processo este iniciado pelo
“Plano Real”, porém padecendo ainda de ações no plano social.
2.3. Terceiro Princípio: “Aumento do Poder Real de Compra”.
Apesar
da característica específica deste princípio, já que analisar a recuperação
do poder de compra dos salários dentro de uma visão macroeconômica
exige mudança nas políticas salariais; investimentos na caprinocultura
exercem uma influência indireta neste princípio ao injetar tecnologias
específicas com o propósito de melhorar e aumentar a produção. Desta
forma, a redução dos custos de produção e conseqüente redução dos
preços das carnes caprinas e seus derivados, levam a um real aumento
do poder de compra do consumidor.
2.4 Quarto Princípio: “Elevação das Oportunidades de Consumo de Alimentos”.
O
acesso aos alimentos com elevado valor nutricional tem sido restrito
a população que detém um bom poder aquisitivo, deixando a maior parcela
dos brasileiros consumindo alimentos essencialmente energéticos. Esse
quadro é ainda mais grave quando se trata da população da região Nordeste.
Para
solucionar um problema de tamanha dimensão é necessário um programa
de longo prazo que possa trazer essa população ao mercado de consumo
de alimentos, bem como a atuação dos programas de caráter assistencialista,
o que entendemos como “socorro alimentar”, para aqueles que estão
em situação de miséria absoluta.
Dentro
desta realidade é possível o estabelecimento de parcerias entre cooperativas
de produtores de caprinos e prefeituras para incluir nos programas
de alimentação para crianças e nutrizes, bem como na merenda escolar,
a carne caprina e seus derivados, como fonte protéica de alto valor
biológico. Desta forma o governo estaria fornecendo uma dupla contribuição
na segurança alimentar da sociedade brasileira Nordestina. Por um
lado, garantindo a comercialização, ou seja, ampliando o mercado da
carne caprina, por outro lado, investindo nesses programas emergenciais,
sem perder de vista a necessidade de avançar desse modelo assistencialista
para reais transformações sociais.
Apesar
de ser evidente o potencial de aumento do consumo de carne caprina,
estatísticas apontam para um baixo nível de consumo “per capta” por
ano no nordeste, e mais ainda em todo o Brasil, em que pese ser hábito
do nordestino, consumir, semanalmente, carne caprina ou ovina
2.5 Quinto Princípio: “Valorização e Expansão da Produção Agropecuária”.
Este
princípio é o que mais se identifica com as peculiaridades da caprinocultura,
considerando que ao se investir
neste setor agropecuário, os objetivos propostos por Wedekin (1993),
citado por Nardin et al. (1997), serão prontamente atendidos,
ou seja:
a)
reconstituição da renda do agricultor, redução da migração
inter-regional, interiorização da classe média rural;
b)
Elevação dos padrões tecnológicos das atividades agropecuárias,
reduzindo os custos de produção dos alimentos e
c)
Respeito às condições naturais de equilíbrio ambiental, baseados
na definição de “Desenvolvimento Sustentável” proposto pela FAO.
Com
o advento das mudanças nas relações comerciais e internacionais, que
propiciou a abertura dos mercados, a atividade agropecuária, assim
como os demais setores da economia nacional, vêm buscando otimizar
as suas unidades produtivas a fim de tornarem-se mais competitivas
(Medeiros, 2001). Neste contexto, torna-se imperativo a caprinocultura
nacional e, em especial à nordestina, a obtenção de uma maior eficiência
produtiva, resultando na valorização e expansão dessa atividade
A
título de ilustração desta valorização, uma publicação recente do
Banco do Nordeste citada por Lima (1999) faz uma análise comparativa
entre um rebanho caprino e um bovino e demonstra através de números,
a viabilidade econômica da caprinocultura para as condições de semi-árido.
Essa projeção é feita com base em um rebanho inicial de 10 vacas,
que após 12 anos, o fazendeiro teria 64 fêmeas, sendo 31 vacas, 12
bezerras, 10 garrotas e 9 novilhas. Já um rebanho com 10 cabras, logo
no primeiro ano seriam 18 animais e após 12 anos, 820 animais fêmeas.
Do ponto de vista financeiro, o rebanho de vacas gerariam um estoque
financeiro de R$ 43.700,00, enquanto que as cabras gerariam um capital
da ordem de R$ 93.000,00. Avaliando-se as condições climáticas e de
pastagens que dispõe a região, além do tamanho da maioria das propriedades
rurais, dentre outras condições, parece estar bem clara a vantagem
de se valorizar e expandir a produção caprina.
2.6. Sexto Princípio: “Redução dos Custos de Comercialização e Distribuição
de Alimentos”.
A
parceria entre prefeituras, cooperativas e associações
de caprinocultores para a inclusão da carne caprina e seus
derivados nos programas emergenciais é uma proposta que pode ser incluída
dentre as ações destinadas a aumentar a eficiência
do processo de comercialização e distribuição, evitando a figura
do “atravessador”, que é responsável pela elevação dos custos de comercialização
e distribuição de alimentos.
Um
grande problema que afeta a sazonalidade na oferta da carne caprina
está relacionado com o aspecto climático da Região Nordeste, que possui
um clima semi-árido com baixos níveis pluviométricos. Esse fator é
primordial para obtenção de pastagens para os animais durante o período
de estiagem, e que pode ser solucionado através da formação de estoques
reguladores anuais, permitindo a oferta linear de carne caprina e
a redução da sazonalidade dos preços.
2.7. Sétimo Princípio: “Agregação de Valor e Interiorização do Desenvolvimento”.
A
realização de pesquisas que definam e divulguem o valor nutricional
da carne caprina seguramente vai agregar valor ao produto, em virtude
do consumidor atual ser mais seletivo e informado, buscando alimentos
nutritivos e que não prejudiquem a sua saúde. Além disso, pesquisas
dessa natureza geram uma contribuição para o fortalecimento da política
de rotulagem dos alimentos, uma vez que no Brasil existem poucos dados
sobre colesterol e ácidos graxos em carnes, embora recentemente tenha
sido publicada, no Diário Oficial da União, a Resolução no.
94, constando o Regulamento Técnico referente à Rotulagem Obrigatória
de Alimentos e Bebidas e Embalados (ANVISA, 2000).
3 Considerações Finais
A
Região Nordeste por sua vocação natural para a caprinocultura pode
tornar-se um centro de excelência nesta área, atendendo dessa forma
aos propósitos de fortalecimento do interior do país, ou seja, a realização
de investimentos no local onde as pessoas estão situadas, evitando,
assim, a sua migração desordenada.
Considerando os relatos de Sousa (1999), está
no agribusiness uma das saídas, à médio prazo, para acelerar
a integração da produção agropecuária nordestina à economia regional
e nacional, além do fato de oferecer uma grande oportunidade de descentralização
agroindustrial. Até mais importante do que isso tudo, depende do agribusiness
a Segurança Alimentar de uma região, pedra fundamental de seu desenvolvimento
como sociedade justa. A visão é a de que a vocação, a capacitação
e os recursos brasileiros no agribusiness podem, se bem administrados,
contribuir de forma decisiva para vencer os quatro grandes desafios
da sociedade nordestina: o desenvolvimento sustentado; a integração
à economia nacional e internacional; a melhoria da distribuição de
renda através da desconcentração de pólos de desenvolvimento e a preservação
do ambiente.
Essa missão, penosa, ambiciosa e difícil, divide-se
em duas redes de tarefas. A primeira, e a maior delas, é a de conscientizar
os segmentos decisórios do país - os políticos, os empresários, os
trabalhadores organizados, os acadêmicos, os líderes da comunicação
- para a importância e complexidade do sistema de agribusiness,
a relevância de seu papel no desenvolvimento econômico e social e
a necessidade de tratá-lo sistematicamente, sem o que se torna impossível
otimizá-lo. A segunda é de torná-lo conhecido: é o desconhecimento
mais elementar de seu funcionamento e dos seus elementos mais importantes,
que impede a visão de conjunto e das importantes interações que ocorrem
dentro do sistema.
As
peculiaridades geográficas do Nordeste brasileiro lhe caracterizam
como região vocacionada para produção de caprinos, sobretudo pela
importância sócio-econômica que ela representa. Entretanto, observa-se
que existe uma lenta evolução na dinâmica produtiva da atividade e
ao mesmo tempo, pelas novas possibilidades proporcionadas pela abertura
de mercados, há uma necessidade de incrementar as ações voltadas para
uma maior eficiência nos núcleos produtivos. Além da melhoria nos
índices técnicos, urge estudar e conhecer as inter-relações da sua
cadeia produtiva, corrigindo e norteando a atividade para inseri-la
no âmbito do agronegócio, tornando a produção de carne e subprodutos
caprinos, definitivamente um propulsor do desenvolvimento da agropecuária
nacional.
4 Referências Bibliográficas
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