1.
Introdução
O
desenvolvimento econômico de um país, além de determinantes sociais,
culturais e políticos, é favorecido e sustentado pelo conhecimento.
No mundo contemporâneo, a produção de riquezas está, essencialmente,
ligada à capacidade do aparato científico e tecnológico. Inovação, qualidade,
quantidade e competitividade tornaram-se condições chaves e a produção
de bens e produtos de alto valor agregado, um requisito de participação
e sobrevivência das nações em
desenvolvimento.
Dentro
deste contexto de desenvolvimento, a sociedade brasileira convive com
muitos problemas graves, entre eles, o de
estabelecer e assegurar uma política nacional voltada para a
Segurança Alimentar e Nutricional, que constitui um dos requisitos básicos
para a promoção e a proteção da saúde, possibilitando a afirmação plena
do potencial de crescimento e desenvolvimento humano, com qualidade
de vida e cidadania. No entanto, atualmente, registra-se a existência
de doenças associadas à pobreza e a desnutrição, e aquelas vinculadas
a hábitos alimentares que afetam geralmente as populações mais pobres,
e que também atingem duramente todas as parcelas da sociedade com expressividade
epidemiológica (Nardin et al., 1997; BRASIL, 2000).
Neste
sentido, a fome, ou seja, a negação do direito à alimentação está mais
relacionada a fatores sócio-político-econômicos, historicamente construídos,
do que a outros determinantes. Nesta vertente, o Nordeste brasileiro,
em particular, face as suas peculiaridades físicas e geográficas determinadas,
apresenta extrema vulnerabilidade a problemas alimentares, influenciados
por diversos fatores, gerando complicações de base primária estruturadas,
com desigualdades de renda, de educação, de saúde, de acesso ao trabalho
e aos meios de produção (Valente,1997).
Segundo
estudos (Quintans,1995; Cordeiro,1998; Silva,1998), no cenário atual
de desenvolvimento econômico no Brasil, a pecuária de caprinos apresenta-se
como atividade promissora. Ressalta-se, também, que o Brasil detém um
expressivo rebanho caprino, com sua grande maioria localizada na região
Nordeste, principalmente nas zonas semi-áridas. Devido à agricultura
instável, a caprinocultura desempenha um importante papel sócio-econômico
nessa região, por proporcionar renda direta, além de representar uma
excelente fonte alimentar.
Atualmente,
a caprinocultura no Brasil apresenta-se em expansão, contando com o
incentivo de ações conjuntas de governos estaduais, instituições de
pesquisa e criadores. Entretanto, ainda verifica-se uma produção incipiente,
principalmente quando se compara o efetivo
caprino brasileiro com o de outros países, estando esta baixa
produção diretamente relacionada com precariedade da tecnologia aplicada,
aliada a não utilização de padrões de qualidade para os produtos caprinos,
entre outros fatores (Silva,1998; EMEPA,1999).
No tocante a caprinocultura leiteira, muitos estudos demonstram
dados sobre o rendimento e a composição do leite. No Brasil, apesar
das freqüentes discussões sobre o desenvolvimento desta atividade, necessita-se,
além de políticas direcionadas, de pesquisas que possam identificar
e atuar nos “entraves” deste setor produtivo, contribuindo para um melhor
aproveitamento tecnológico e fornecendo subsídios para produtores, órgãos
governamentais e pesquisadores.
Tendo
em vista essas questões, a expansão da caprinocultura leiteira, com
a viabilização de produtos de qualidade, poderá resultar em um aumento
do nível de aceitabilidade, com conseqüente ampliação da agroindústria
regional, contribuindo, desta forma, para a melhoria do nível de vida
e fixação do homem ao meio rural e, sobretudo, influenciando positivamente
na Segurança Alimentar e Nutricional da população.
Desta
forma, o objetivo deste trabalho é relacionar a caprinocultura leiteira
com os princípios propostos no plano da Segurança Alimentar e Nutricional
no país, bem como, avaliar
a possível contribuição desta atividade agroindustrial no contexto de
desenvolvimento.
2.
Caprinocultura leiteira e a segurança almentar e nutricional
A
caprinocultura vem ganhando grande impulso nos últimos anos pelo potencial
que representa, podendo ser considerada um instrumento eficaz de promoção
de desenvolvimento da zona semi-árida no Nordeste brasileiro. A sua
exploração desempenha papel relevante como fonte de proteínas e importante
fator sócio-econômico para os pequenos produtores, através da utilização
de seus subprodutos (Rodrigues,1998; Lima, 2000).
A
capacidade de adaptação dos caprinos a uma ampla variedade de condições
climáticas, rusticidade e qualidade dos produtos que fornecem ao homem
para sua alimentação e vestuário, faz com que os mesmos apresentem maior
eficiência produtiva que qualquer outro ruminante doméstico, comprovada
pela existência de produção de caprinos em regiões castigadas pelas
secas e desprovidas de agricultura (Medeiros et
al.,1994).
De
acordo com a FAO (1995), o rebanho mundial de caprinos corresponde a
mais de 600 milhões de cabeças, das quais 94% encontram-se em países
em desenvolvimento e 6% em países desenvolvidos, correspondendo a cerca
de 20% da produção mundial de leite de cabra. Quanto ao rebanho brasileiro,
de acordo com dados do FNP–ANUALPEC (1998), o número efetivo de caprinos
estimava-se em mais de 11 milhões de cabeças, das quais 90% encontravam-se
na região Nordeste.
A
exploração caprina também tem despertado interesse em outras regiões
do país, notadamente nas regiões Sul e Sudeste, com um efetivo de 3%
do rebanho nacional. Apesar de parecer pouco expressivo, esse percentual
torna-se relativo, pois essas regiões estão razoavelmente estruturadas
em associações de criadores, utilizando alta tecnologia, assistência
técnica e insumos modernos, para introdução de mercados voltados para
o leite e seus derivados (Prata et.
al., 1998).
Segundo
Silva (1998), com o surgimento de novas formas organizacionais na região
Nordeste, a caprinocultura leiteira no Brasil poderá alcançar números
jamais vistos, pois esta região possui vantagens comparativas que propiciam
a construção de atividades competitivas, o que tornará o Nordeste, um
grande exportador de leite e derivados, não só para outras regiões,
como também para outros países.
O
atual conceito de Segurança Alimentar e Nutricional significa: garantir, a todos, condições de acesso a alimentos básicos de qualidade,
em quantidade suficiente, de modo permanente e sem comprometer o acesso
a outras necessidades essenciais, com base em práticas alimentares saudáveis,
contribuindo assim, para uma existência digna, em um contexto de desenvolvimento
integral da pessoa humana (Menezes, 1998). Dentro deste “modelo”,
a caprinocultura leiteira encontra-se inserida, visto que, está diretamente
relacionada a fatores determinantes de desenvolvimento e ao conjunto
de componentes de políticas específicas, ou seja, o crédito agrícola,
o incentivo ao pequeno produtor, a avaliação e adoção de tecnologias
agrícolas industriais; os estoques estratégicos, o cooperativismo, o
acesso e a distribuição, o manejo sustentado, entre outros.
De
acordo com alguns autores, as políticas de Segurança Alimentar e Nutricional
devem nortear alguns princípios que visam apresentar à sociedade um
conjunto de ações voltadas à concretização do direito humano universal
a alimentação e nutrição adequadas (Nardin et.
al.,1997; Valente,1997; Brasil,2000). Neste sentido Wedekin (1993),
citado por Nardin et al. (1997),
propõe alguns princípios que podem contribuir como base em torno
de uma política de Segurança Alimentar e Nutricional: “construção
da Família Brasil; estabilidade econômica para o desenvolvimento nacional;
aumento do poder real de compra dos salários; elevação das oportunidades
de consumo de alimentos; valorização e expansão da produção agropecuária;
redução dos custos de comercialização e distribuição de alimentos; agregação
de valor e interiorização do desenvolvimento”.
Menezes
(1998) cita, ainda, que existe uma causa fundamental para a insegurança
alimentar no Brasil: a incapacidade de acesso. Isto
se
dá, especialmente, pela falta de poder aquisitivo de uma parcela não
desprezível da população para adquirir os alimentos que necessita. Mas
existem outras faces deste mesmo problema, que é também a falta de acesso
aos bens
de produção na área rural, principalmente para aqueles que não tem terra.
E, em uma outra dimensão, a falta de acesso aos serviços públicos (água,
esgoto, educação e saúde) que têm impacto sobre a segurança alimentar
e a falta de acesso à informação, instrumentos básicos para aqueles
mais vulneráveis à fome e a desnutrição. Outros problemas também ameaçam
a segurança alimentar e nutricional no Brasil. De um lado, o crescimento
das importações de alimentos, deixando a soberania alimentar do país
ameaçada. De outro, a falta de sustentabilidade do sistema alimentar.
Por último, a imposição de um padrão alimentar inadequado e que ameaça
valores culturais de grande riqueza da nossa alimentação.
As
ações voltadas a garantir essa segurança dão, assim, conseqüência prática
ao direito humano à alimentação e nutrição, alcançando um caráter intersetorial,
o que respeita à produção e ao consumo, o qual engloba, necessariamente,
capacidade aquisitiva da população e a escolha
dos alimentos que devem ser consumidos, nesta incluída os fatores
culturais que interferem em tal seleção.
Desta
forma, os fatores determinantes da Segurança Alimentar são o acesso
ao alimento, a disponibilidade de alimento e os riscos relacionados
ao seu acesso ou disponibilidade. Todos esses fatores estão, intrinsecamente
relacionados com o processo de distribuição de riqueza e renda. Contudo,
o problema alimentar no Brasil ainda é gritante, devendo ser pautado
como temática permanente em toda área sócio-político-econômica. Partindo
daí, todo debate deve se basear, primeiramente, na informação/conscientização
da população brasileira acerca dos seus problemas conjunturais, que repercutem diretamente
no “Desafio de Construir a Família Brasil”. A promoção do desenvolvimento rural integrado e sustentável, através
da caprinocultura leiteira, pode contribuir com essas questões mencionadas,
principalmente no aspecto de acesso ao alimento, através do fornecimento
de leite e produtos derivados combatendo a fome e a desnutrição.
A
instabilidade econômica afeta fortemente a cadeia agroalimentar, e conseqüentemente,
os trabalhadores e os agricultores. Os sucessivos Planos Econômicos
no Brasil, a falta de uma política concreta que subsidie os pequenos
produtores ou a agricultura familiar, particularmente, no caso do semi-árido
nordestino de convivência com a seca, atinge diretamente o conjunto
de produção de alimentos. Desta forma, produz-se cada vez mais para
atender uma demanda específica, cujo principal atrativo é a geração
de divisas para manutenção da política econômica. Insistentemente no
Brasil, nega-se ações, tanto por parte do governo, quanto pela sociedade
civil, que possibilitem atender a políticas de segurança alimentar e,
por conseguinte, a estabilização dos preços, estando este dois fatores
diretamente interferindo na estratégia de segurança, de modo imperativo.
A
caprinocultura leiteira baseada no desenvolvimento de modelos alternativos
estimula a geração de renda, a criação e fortalecimento de microempresas
rurais, ligadas a programas de créditos, dentro de uma visão macro do
agribusiness. Tais fatores,
alicerçados em ações conjuntas governamental e da população representadas
por suas entidades de classe, Apresentar-se-ão como contribuição para
a “Estabilidade Econômica”,
influenciando positivamente o “Aumento
do Poder Real de Compra”,
e vice-versa, bem como, no mecanismo construtivo da cidadania e promoção
de “Desenvolvimento Social” .
Segundo
dados do Ministério da Saúde (BRASIL, 2000), verifica-se falhas na oferta,
no consumo ou nos padrões de utilização biológica dos alimentos, em
algumas regiões do país. Nessas circunstâncias, e aliada a outros fatores
tais como deficiência de renda, quebra de produção e desinformação e/ou
hábitos alimentares inadequados, promovem a ocorrência de doenças e
agravos endêmicos ou epidêmicos, possibilitando a existência de problemas
que afetam a população: a desnutrição; as carências específicas; a obesidade
e outras doenças de reconhecida relevância epidemiológica.
Na
Região Nordeste, esta situação é ainda mais grave, devido a problemas
sócio-político-econômicos, já discutidos, em que, muitas vezes, se faz
necessário à aplicação de programas de caráter emergencial e assistencialista,
ou seja, o “Socorro Alimentar”. Apesar de sua extrema importância, estas
ações, não são as mais indicadas, porque podem encobrir a magnitude
dos problemas de segurança alimentar e as desigualdades sociais próprias
do modelo de desenvolvimento. Neste sentido, o incentivo a políticas
voltadas para o incremento da caprinocultura leiteira regional pode
assegurar alimentos de alto valor biológico e a “Elevação das Oportunidades de Consumo de Alimentos”,
através de programas como: merenda escolar, suplementação de crianças
e nutrizes e inserção de projetos integrados junto às diretrizes de
Reforma Agrária (já existentes em alguns Estados), representando um
instrumento de resistência da produção artesanal do leite caprino, frente
a “plasticidade” da produção industrial.
A “Valorização e Expansão da Produção Agropecuária”,
a “Redução dos Custos
de Comercialização e Distribuição de Alimentos”
e a “Agregação de Valor e Interiorização do Desenvolvimento”
podem ser destacados como estruturantes da Agribusiness que,
por sua vez, estão diretamente relacionados com as diretrizes da Segurança
Alimentar e Nutricional, podendo a caprinocultura leiteira representar
uma das alternativas para acelerar a integração da produção nordestina
à economia regional e nacional. Para tanto, se fazem necessários incentivos
na geração e difusão de tecnologias que visem assegurar o aumento da
produtividade e maximização da qualidade, bem como ações governamentais
que abranjam esta temática, como, por exemplo, o Programa de Fortalecimento
da agricultura Familiar - PRONAF, que emerge atualmente no país (Lima,
2000). No que tange a caprinocultura leiteira, são imprescindíveis pesquisas
direcionadas, podendo-se citar:
questões de manejo; melhoria da qualidade dos produtos ofertados;
estudo abordando o beneficiamento e o acondicionamento, além da elaboração
de derivados com qualidade competitiva (iogurtes, queijos, doces).
Neste
sentido, o fortalecimento de modelos de produção sustentável, o agribusiness,
para esta atividade agropecuária, através de todas as questões discutidas,
e a agregação de valor às matérias-primas nas próprias regiões de produção,
dentro do contexto de políticas de segurança alimentar, poderão proporcionar
sustentação às cidades do interior, influenciando de forma significativa
no grande desafio da sociedade nordestina, que é a garantia de
seu desenvolvimento, calcado dentro de um modelo justo de cidadania,
tendo a Segurança Alimentar e Nutricional como um dos seus pilares.
3.
Considerações Finais
Os problemas alimentares e nutricionais que atingem os países
em desenvolvimento são muitos e graves, parecem insolúveis, principalmente
em países continentais como o Brasil, apresentando-se emaranhados e
encravados dentro de outros problemas gritantes, que atropelam o desenvolvimento
de uma sociedade mais justa. Portanto, cada vez mais, necessita-se de
ações eficazes, alternativas que atinjam os alvos, diminuindo a fome,
a exclusão e a negação à cidadania.
Neste pensamento, acredita-se que a caprinocultura leiteira,
modelada em planos estratégicos, visando o seu fortalecimento e sua
ampla expansão, apresentar-se-á como um instrumento capaz de contribuir
de forma significativa, a alcançar os objetivos das políticas de Segurança
Alimentar e Nutricional no Brasil. Mas, para tanto, precisa-se de ações
corretas e atitudes dignas, desde a esfera governamental até o criador
e, também, de uma forte união entre todos os setores competentes, pois,
só assim, poderá contribuir para um futuro melhor e um milênio sem fome.
4.
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