A Certificação de Origem como estratégia de viabilização da caprino-ovinocultura de base familiar do semi-árido

 Clovis Guimarães Filho 

* Mestre em Produção Animal pela University or Arizona (USA); ex-chefe adjunto de P&D da Embrapa Semi-Árido; consultor em Caprino-Ovinocultura do SEBRAE-PE

1. INTRODUÇÃO

Teoricamente o fortalecimento do agronegócio de qualquer produto implica a necessidade de especialização. Por outro lado, o fortalecimento dos sistemas produtivos de base familiar implica o oposto, a diversificação. Há um pseudo-antagonismo nessa relação. Segundo Veiga (2001), as duas estratégias não são excludentes e a própria realidade da região  semi-árida mostra isto perfeitamente. As atividades já são diversificadas, dentro da propriedade, existindo naturalmente uma ou duas que se destacam pela sua maior inserção no mercado.  É perfeitamente possível o desenvolvimento de sistemas diversificados de base familiar, oferecendo ao mercado, pelo menos um dos produtos com as qualificações mercadológicas de ordem sanitária, sensorial e de uso exigidas pelo consumidor.

As dificuldades de acesso aos mercados pelos produtos da agricultura familiar decorrem muito mais da sua incapacidade em atender os requisitos de qualidade e regularidade de oferta do que propriamente da natureza de organização da produção que lhe é peculiar. Melhorar o nível de organização e enfatizar a capacitação em gestão da unidade produtiva são os instrumentos de ação que devem ser empregados para reduzir ou eliminar essas deficiências.

Segundo Cerdan & Sautier (2001), a agricultura familiar do Nordeste semi-árido se caracteriza por uma forte capacidade de adaptação às demandas de mercado e uma flexibilidade e uma dinâmica de inovação no que concerne a produtos e procedimentos, que podem ser expressas tanto a uma escala territorial como a uma escala de unidade produtiva. O requisito básico para o seu desenvolvimento seria o estabelecimento de políticas públicas que realmente permitissem expressar o potencial da diversidade existente, estimulando a mobilização dos atores econômicos na busca da valorização dos produtos locais. Tais políticas abrangeriam medidas visando o fortalecimento das organizações de produtores, a melhoria das condições de crédito e a reestruturação, em novos moldes, da rede de assistência técnica e extensão rural.

2. OS SELOS DE INDICAÇÃO GEOGRÁFICA

A valorização dos produtos locais é, no contexto da globalização, o grande instrumento estratégico para alcançar os objetivos principais de preservar os recursos da caatinga e assegurar, ao mesmo tempo, o bem estar das populações que nela vivem e dela dependem. Produtos diferenciados, a partir da incorporação de uma identidade territorial e cultural, constituem uma alternativa de grande potencial no Semi-Árido. É simplesmente uma questão de um pouco mais de esforço em conhecer melhor o que temos e do que dispomos, de reconhecer as experiências locais, associando-as, a partir daí, ao conhecimento científico necessário a plena expressão desse potencial.

A diferenciação dos produtos deve ser fundamentada no estabelecimento de normas que definam e orientem o processo de sua certificação. A denominação de origem e a indicação de procedência, tipos de certificação que já existem em vários países, sobretudo na Europa, seriam não apenas esses instrumentos de agregação de valor a esses produtos, mas, sobretudo, constituiriam os requisitos básicos para o seu reconhecimento e proteção. São certificados com a denominação de origem, por exemplo, todos os produtos cujas qualidades ou características se devam exclusiva ou essencialmente ao meio geográfico, incluídos aí fatores naturais (solo, clima) e/ou humanos (tradição, cultura). Em outras palavras, deve haver uma clara ligação estabelecida entre o produto, o território e o talento do homem (o “saber-fazer”).

A concepção dos produtos a certificar deve resultar de um processo natural de construção social, refletida na sua identificação com o território de origem em suas dimensões geográfica, histórica e cultural. Um produto do Semi-Árido deve apresentar forte apelo mercadológico, especialmente em função da sua relação harmônica com o meio ambiente. Entretanto, características como essas, precisam ainda de uma construção pelo “marketing” (CNEARC-CIRAD-INRA, 1998), posicionando-o no mercado através de trabalho de comunicação mais amplo sobre sua imagem. É isso que é praticado por um sem número de países com vários produtos das regiões mais desfavorecidas, onde predominam pequenos agricultores familiares. Quase todas as regiões norte e leste de Portugal estão zoneadas para produção de caprinos e ovinos com denominações de origem e indicações geográficas protegidas (Teixeira, 2003). São sete “marcas” de ovinos (“borrego Serra da Estrela”, “borrego da Beira”, “cordeiro Bragançano”, etc.) e cinco de caprinos (“cabrito Transmontano”, “cabrito da Beira”, etc.). A Espanha oferece os seus famosos cordeiros “ternasco de Aragón” e “manchego”. Na França podem ser citados os queijos “roquefort“ (de leite de ovelha) e “chabichou du Poitou” (de leite de cabra). Dezesseis por cento da produção queijeira da França tem certificação de origem. A Argentina conta com o “cordero patagón”.

Embora não possa ainda ser caracterizada exatamente como um produto com denominação de origem, no Brasil existe, na região de Herval, RS, o “cordeiro Herval Premium”. No país só existe um produto com certificação de origem, o vinho do Vale dos Vinhedos, RS. Outras iniciativas em busca dessa certificação estão em andamento, entre elas o mel de abelhas da região de São Raimundo Nonato, PI, e o queijo da Serra da Canastra, MG.

Para obter o reconhecimento junto ao INPI e utilizar o selo de denominação de origem ou de indicação de procedência, o produto deve atender um conjunto de exigências contidas no “caderno de normas e especificações”, incluindo delimitação de território, sistemas de produção e de controle e outros, cujo estrito cumprimento é normalmente fiscalizado por certificadoras independentes credenciadas pelo governo.

3. O QUE CERTIFICAR NA CAPRINO-OVINOCULTURA DO SEMI-ÁRIDO?

Como seria, por exemplo, um cabrito certificado com denominação de origem que a agricultura familiar do semi-árido fosse oferecer ao mercado? Antes de tudo, o produto precisaria ter uma “marca”, tipo "cabrito ecológico da caatinga", mais abrangente, ou tipo "cabrito de Uauá”, circunscrita a um espaço geográfico menor. O importante para o produto seria definir suas especificidades e vincula-las a uma ou mais características próprias daquele espaço. O meio geográfico marca e personaliza o produto pelo que a delimitação da zona de produção torna-se pré-requisito indispensável.

O “sabor da caatinga” implícito na carne do cabrito viria da sua associação com a vegetação de caatinga de que se alimenta, pelo menos em parte de sua vida. Outras características sensoriais, culturais ou ambientais poderiam advir do fato de se criar uma determinada raça ou ecotipo nativo (poderia ser um “cabrito do Moxotó”, no vale do mesmo nome), ou ainda, de uma maneira tradicional e peculiar de processar e preparar o animal, como a “manta de carne seca retalhada”. Este tipo de “saber-fazer” poderia ser valorizado como uma especificidade, contribuindo na definição, por exemplo, de um “cabrito de Uauá”, ou de qualquer outro espaço geográfico onde essa prática fosse marcante. O zoneamento do Semi-Árido, portanto, torna-se um procedimento essencial para fundamentar um processo de identificação e espacialização das potenciais marcas de cabritos e borregos, com base em suas especificidades ligadas a fatores naturais e/ou culturais de cada um dos espaços.

A criação de uma ou mais marcas de “cabrito ecológico da caatinga” enfatizaria as relações do animal com o bioma, utilizaria um mínimo de insumos externos e valorizaria e preservaria as raças nativas, mesmo que esses fatores condicionassem um abate mais precoce, em função do desenvolvimento ponderal um pouco mais lento. Isto não constituiria problema, já que essa aparente desvantagem poderia ser neutralizada pela produção de carcaças mais leves ou largamente compensada, tanto pelo nível menor de investimento necessário, quanto pelo valor agregado ao produto pelas suas especificidades mercadológicas.

Um produto efetivamente diferenciado e impossível de ser imitado como esse (onde não há caatinga não se pode produzir o “sabor da caatinga”) poderia se constituir em importante alternativa de resgate social e econômico do caprinocultor da região semi-árida e de reversão do acentuado processo de degradação dos recursos naturais que atinge esta região. Seria um agronegócio diferente dos convencionais, na medida em que elegeria como premissas básicas a preservação do ecossistema e a equidade social na distribuição dos benefícios gerados. Contatos preliminares mantidos com redes de supermercados confirmaram o interesse dessas organizações em trabalhar com um produto caprino ou ovino dessa natureza, com certificação de origem. É necessário porém muita cautela para que essa inserção no mercado se proceda em uma base justa e transparente, perspectiva que se fortalece com os crescentes movimentos de consumo consciente, comércio justo e solidário que se observa ao nível mundial (CRS-DED-MLAL-OXFAM, 2003).

Isto também poderia ser feito com borregos e cordeiros, porém com maiores dificuldades de sua associação com o ambiente da caatinga e com limitações de competitividade, em função da forte concorrência de outros estados (além do Sul, a ovinocultura se expande rapidamente no Centro-Oeste e no Sudeste) e dos países do Mercosul. Embora o mercado hoje seja mais favorável aos ovinos, a médio e longo prazos, as perspectivas para o caprino, como produto da agricultura familiar com maior potencial de diferenciação para o mercado, seriam mais favoráveis.

A carne e o leite não devem ser encarados como produtos únicos para a atividade capri-ovinícola praticada pelas organizações de agricultores familiares. Há muito boas perspectivas ainda para as peles, enfatizando, inclusive, o artesanato (artigos de montaria, indumentária para vaquejadas, sandálias, casacos, bolsas, móveis, etc.) e para o turismo (“capri-turismo” ou “circuito do bode”), em que estariam inseridas unidades de criação e de beneficiamento  com interesse técnico, ecológico, gastronômico, cultural  ou de lazer, transformáveis em pequenas unidades hoteleiras.

Em suma, a implantação de um sistema de denominação de origem para os produtos do Semi-Árido, como o caprino e o ovino, pode ser considerada como inserida no processo de “desenvolvimento local”  já que busca a valorização de uma  especificidade local, transformando-o em um “produto do território”. Seria, segundo Schröder et al. (2002), uma forma alternativa de inserção do produtor de base familiar na lógica adversa do mercado convencional.

 

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O sucesso de um programa regional com esse enfoque demandaria, como enfatizado anteriormente, o fortalecimento das associações de produtores (não há certificação para pessoa física), a estruturação de redes locais de apoio técnico, o estabelecimento de uma linha de crédito específica, adequada a capacidade remuneratória dessas atividades e a imediata implantação de um programa de pesquisa e desenvolvimento que inclua, como ação inicial, um zoneamento de toda área ocupada pelo bioma caatinga, identificando, para cada produto, as zonas diferenciadas ou territórios potenciais para obtenção dos selos de denominação de origem e indicação de procedência.

O conjunto de ações deve ser implantado em espaços supra-municipais ocupados pela agricultura familiar, onde existam elementos potenciais de identidade coletiva e outros ativos e fatores diferenciais que permitam desenvolver novos negócios relacionados com agregação de valor, com aproveitamento de tipicidades locais/regionais e dos patrimônios culturais e sociais específicos (Flores, 2003). Sistemas de criação que assegurem níveis de alimentação e de sanidade adequados à plena expressão da qualidade do produto ofertado e à viabilização econômica do empreendimento,  são, naturalmente, pré-requisitos indispensáveis.  Se assim concebidos e operados, os programas de fortalecimento da caprino e da ovinocultura no Semi-Árido contribuirão, sem dúvidas, para a obtenção de resultados efetivamente impactantes no que tange: 

·         Ao aumento da oferta quantitativa e qualitativa dos produtos caprinos e ovinos (carne e pele, principalmente) para um mercado crescente e insatisfeito;

·         A melhoria nos processos de utilização dos recursos naturais de solo, água, planta e animal do bioma caatinga e de gestão do espaço rural como um todo;

·         A retenção e/ou criação de um maior número de empregos nas unidades produtivas e das vilas e povoados, reduzindo o fluxo migratório desses locais para as cidades maiores e  para os perímetros irrigados;

·         A elevação da participação da caprino-ovinocultura na composição da renda das unidades produtivas de base  familiar, assegurando melhores condições para a reprodução e a acumulação dos  seus meios de produção;

·         A maior valorização da cultura e do saber-fazer locais, impondo-se como instrumento efetivo de reafirmação da identidade local; e

·         Ao melhor ordenamento e maior equilíbrio no processo de integração econômica e social entre as distintas condições agroecológicas existentes nessa zona. 

5. BIBLIOGRAFIA CONSULTADA 

CERDAN, C.; SAUTIER, D. Systèmes d’intermédiation et valorization économique des produits. In: PAYSANS DU SERTÃO: MUTATIONS DES AGRICULTURES FAMILIALES DANS LE NORDESTE DU BRÉSIL. Montpellier, França: CIRAD/EMBRAPA, 2001. p.135-152.

CNEARC-CIRAD/TERA-INRA/SAD. Territoire/homme technique: quelles relations? Etude dans le Lot: agneaux, fromages et vins. Montpellier: CNEARC/CIRAD/INRA, 1998. 84p.

CRS-DED-MLAL-OXFAM. Programa de Acesso a Mercado no Semi-Árido Brasileiro – PAMSA. Proposta de programa. 2003. 8p (documento de trabalho não publicado).                                  

FLORES, M.X. Projeto de fortalecimento das capacidades competitivas dos pequenos produtores rurais: desenvolvimento territorial e estratégias inovadoras. Brasília: EMBRAPA-CONTAG-Fundação Lyndolpho Silva-SEBRAE-BID, 2003. 46 p (documento de trabalho não publicado)

SCHRÖDER, M.; NASCIMENTO, H.M.do; TEIXEIRA, V.L. Alternativas de inserção no mercado para a agricultura familiar: uma discussão a partir de experiências selecionadas. In: SIMPÓSIO LATINOAMERICANO SOBRE INVESTIGAÇÃO E EXTENSÃO EM SISTEMAS AGROPECUÁRIOS, 5. Florianópolis, SC, 2002. Anais ... Florianópolis, 2002. p.131.

TEIXEIRA, A. Produção de cabritos e cordeiros com certificação de origem protegida – uma experiência de Portugal. In: SIMPÓSIO INTERNACIONAL SOBRE CAPRINOS E OVINOS DE CORTE, 2. João Pessoa, PB, 2003. Anais ... João Pessoa, 2003. p.59-69.

VEIGA, J.E.; FAVARETO, A.; AZEVEDO, C.M.A.; BITTENCOURT, G.; VECCHIATI, K.; MAGALHÃES, R.; ROGÉRIO, J. O Brasil precisa de uma estratégia de desenvolvimento. Brasília: Convênio FIPE-IICA (MDA/CNDRS/NEAD), 2001.108p.