Doenças
infecciosas da esfera da reprodução em caprinos
Walter
Lilenbaum, MVD, PhD
Professor Adjunto da Universidade Federal Fluminense
A
caprinocultura visando a produção leiteira é
uma atividade relativamente recente e nos últimos dez anos
têm se revelado uma indústria em expansão no
Estado do Rio de Janeiro. Apesar do elevado efetivo caprino e da
forma acentuada como vem se desenvolvendo no Brasil nos últimos
anos, os níveis de produção e produtividade
dos rebanhos nacionais são ainda bastante inferiores aos
encontrados nos países desenvolvidos. Ainda assim as patologias
dos caprinos são pouco estudadas, o que muitas vezes não
possibilita o conhecimento das enfermidades responsáveis
pelos abortamentos.
No Estado do Rio de Janeiro, a criação é muitas
vezes realizada de forma intensiva, em que um grande número
de animais é mantido em pequena área de criação.
Desta forma, caso não ocorra uma preocupação
permanente com o controle sanitário dos animais, a possibilidade
de ocorrerem surtos e assim uma grande disseminação
das enfermidades é muito alta.
1. Leptospirose
A leptospirose caprina é uma enfermidade determinada por
uma bactéria denominada Leptospira interrogans. Este agente
apresenta diferentes amostras, e para cada amostra, um diferente
reservatório. Ao contrário do que ocorre com humanos,
que freqüentemente apresentam infecção pela amostra
icterohaemorrhagiae, transmitida pela urina da ratazana, os caprinos
preferencialmente apresentam infecção pela amostra
hardjo, que é mantida pelos bovinos e, talvez, pelos próprios
caprinos.
A doença caracteriza-se por febre, anorexia, hemoglobinúria
e anemia. Os sintomas ligados à eficiência reprodutiva,
como infertilidade temporária ou permanente, sub-fertilidade,
mortalidade neonatal, abortamentos e redução na produção
de leite são, entretanto, os mais comuns, gerando perdas
econômicas para o criador.
A principal forma de diagnóstico desta enfermidade é
através de exames sorológicos, realizado em laboratórios
de referência. O método mais utilizado é o da
soroaglutinação microscópica com antígenos
vivos, conforme recomendado pela OMS e pela OIE. De uma forma geral,
recomenda-se um exame de todos os animais com idade superior a seis
meses. Caso isso não seja possível, com uma amostragem
de cerca de 20% do rebanho, com um mínimo de 20 amostras,
pode-se ter uma visão mais ampla do rebanho.
O controle da enfermidade passa, necessariamente, pelo diagnóstico.
A partir do número de animais reativos e da amostra predominante
em cada rebanho, avalia-se a conveniência de utilização
de medidas sanitárias e de controle, tais como vacinação
e antibioticoterapia.
Nossa experiência com esta doença foi descrita em recente
trabalho de pesquisa, onde trabalhamos com soros de 1000 caprinos
de aptidão leiteira provenientes de 48 propriedades localizadas
em diferentes regiões do Estado do Rio de Janeiro. Neste
estudo, a freqüência média de reatividade foi
de 11,1%. Conforme esperado, a amostra hardjo foi a mais freqüente.
Em função destes resultados, sugere-se um de monitoramento
sorológico permanente dos rebanhos como uma forma de vigilância
perante a infecção, além da detecção
de surtos ocasionais que podem determinar prejuízos à
exploração econômica dos animais.
2. Brucelose
A brucelose é uma doença infecciosa causada pelas
bactérias do gênero Brucella. Apesar da principal brucela
de caprinos, a Brucella melitensis ser considerada exótica
no Brasil, deve-se sempre considerar que o agente da brucelose bovina,
a Brucella abortus, é bastante freqüente em nosso meio
e também acomete caprinos.
A doença se caracteriza principalmente pelos sintomas da
esfera reprodutiva, como abortamentos nos estágios finais
da gestação, nascimentos prematuros, esterilidade
e baixa produção de leite. Deve-se sempre lembrar
que, além dos importantes prejuízos econômicos
para o criador, a brucelose é uma zoonose, isto é,
uma doença que pode ser transmitida dos animais para o homem
e vice-versa. Assim, nesta enfermidade o teste de todos os animais
com idade acima de seis meses é imprescindível. O
uso combinado de diferentes métodos sorológicos, associados
ao estudo epidemiológico do rebanho permite um bom diagnóstico
da doença em caprinos. Conforme regulamentação
oficial, atualmente utiliza-se o teste com antígeno acidificado
seguido de confirmação com a prova do 2-Mercaptoetanol.
Também relatamos nossa experiência com esta enfermidade
em recente trabalho de pesquisa. Neste estudo, analisaram-se 953
amostras oriundas de 45 propriedades localizadas em 29 municípios
do Estado, por diversos métodos. Concluiu-se que a Brucelose
está presente de forma esporádica no rebanho caprino
leiteiro do Estado do Rio de Janeiro, com uma ocorrência de
5,98% de animais suspeitos e 0,52% de casos confirmados. O uso de
colostro e leite bovinos sem a devida pasteurização
foi um importante fator de risco para a ocorrência da enfermidade.
Em função destes resultados, sugere-se um esforço
para testar a totalidade dos animais com idade superior a seis meses
a fim de abater os reativos e garantir a erradicação
da enfermidade no rebanho caprino.
3. Artrite-Encefalite Caprina (CAE)
A CAE é uma doença viral que acomete animais de ambos
os sexos, várias raças e idades. Determina uma importante
redução na produção leiteira, causando
perdas econômicas aos criadores. No entanto, pode ser observada
uma diferença na forma clínica que acomete as diferentes
idades, sendo a forma encefalítica mais freqüente em
animais jovens e a forma artrítica, em animais maduros. A
doença pode levar de vários meses a anos para se manifestar,
devido ao longo período de incubação do vírus.
Os animais nesta fase são portadores sem sintomas, que eliminam
o vírus e podem contaminar os outros animais.
A forma de transmissão mais importante é por via oral.
O cabrito se contamina principalmente durante o aleitamento pela
ingestão de leite ou colostro de cabras infectadas. Pode
ainda ocorrer outras formas de transmissão, através
de fezes, urina, saliva e secreções respiratórias.
O vírus também pode ser transmitido por contato sangüíneo
através de agulhas ou durante a tatuagem ou aplicação
de brincos.
A forma artrítica ocorre normalmente em caprinos com idade
superior a oito meses, e é caracterizada por sinovite e artrite
crônica e progressiva, havendo um aumento na consistência
e tamanho das articulações e claudicação.
Afeta principalmente as articulações carpianas, podendo
em casos crônicos ocorrer uma calcificação da
articulação acometida.
A forma encefalítica ocorre principalmente em cabritos entre
dois a quatro meses de idade. Os animais permanecem conscientes
e respondem normalmente a estímulos. Com a progressão
da doença, pode ocorrer depressão, cegueira, reflexo
pupilar anormal, tremor na cabeça, torcicolo, andar em círculos
e paralisia progressiva.
O Índice Clínico (IC) é um método no
qual é calculada a diferença entre o diâmetro
da articulação carpo-cubital e o diâmetro do
metacarpo. Em nossa experiência, este não é
um método confiável para o diagnóstico. O diagnóstico
sorológico para CAE é realizado principalmente pelo
teste de Imunodifusão em Gel de Agar.
A profilaxia para a CAE é muito importante devido à
ausência de um tratamento efetivo contra o vírus. O
acompanhamento sorológico semestral do rebanho e o abate
ou isolamento dos animais soropositivos são muito importantes.
Propõe-se ainda a separação dos cabritos desde
o nascimento e alimentação com colostro tratado a
56°C por uma hora e posteriormente leite pasteurizado.
No que se refere aos estudos com o diagnóstico de CAE observamos
reatividade em 14,1% das amostras examinadas de rebanhos do Estado
do Rio de Janeiro, e mais recentemente, 17,9% de reatividade em
amostras de Minas Gerais. Estes números são bastante
altos e mostram a importância da adoção de um
programa de controle da doença com testes periódicos
e em nosso meio.
Concluindo, observamos que, apesar dos avanços tecnológicos
observados mais recentemente na caprinocultura, uma maior ênfase
no controle sanitário dos rebanhos deve ser observada, a
fim de aumentar a produtividade dos rebanhos, bem como garantir
a qualidade do leite oferecido à população.