O Agronegócio da Carne Caprina na Argentina:
Em busca de espaço no mercado internacional
 Roberis Ribeiro da Silva*   

O rebanho caprino da Argentina, segundo o censo nacional agropecuário do ano de 2002 alcança 3.404.190 cabeças, conforme Tabela 1. Entretanto outras fontes do próprio governo citam que o efetivo caprino é de 3.964.146 cabeças.  A cadeia produtiva da caprinocultura de carne não é tão competitiva quanto à ovinocultura, mas algumas províncias vêm se destacando nesta atividade como: Chaco, Neuquén e Santiago del Estero.

Os rebanhos caprinos na Argentina se localizam mais nas áreas árida e semi-árida. Na província de Chaco, encontra-se em execução o Projeto de Ganadeno del Noroeste Chaqueno (PROGANO), em parceria com governo de Trento na Itália. Este projeto engloba um frigorífico, centros de capacitação e programa sanitário. Atenderá cerca de 4.690 produtores da região, numa área de 4.275.500 hectares, que representa 57% do total desta província. Também se encontra nesta região um rebanho de aproximadamente 244 mil cabeças.

O frigorífico integrado ao PROGANO está apto a exportar para União Européia segundo SENASA e é administrado pela Cooperativa de Trento Chaquenã Limitada. Sua capacidade de armazenagem é de 700 cabeças resfriadas e 4.200 cabeças congeladas, sua capacidade de abate é de 400 cabeças por turno, possui um depósito de couros de 200 metros quadrados e um reservatório com mais de 240 mil litros de água.

Penso que projetos desta natureza são interessantes para ser visitados por produtores, associações e governos municipais e estaduais do nordeste brasileiro.

Tabela 1. Efetivo caprino por províncias, 2002

Províncias

 

Quantidade

(cabeças)

Buenos Aires

2.800

Catamarca

156.600

Chaco

259.200

Chubut

96.00

Córdoba

200.700

Entre Rios

11.700

Formosa

132.100

Jujuy

178.000

La Pampa

66.400

La Rioja

111.800

Mendoza

477.900

Neuquen

617.000

Salta

256.700

San Juan

73.190

San Luis

135.200

Santa Fe

41.600

Santiago del Estero

420.600

Tucumán

25.000

Total

3.404.190

Fonte: SAGPyA, 2004


O abate de caprino em 2002 aumentou em 41,76% comparado ao ano de 2001. A tendência de elevação dos abates permanecem nos dois primeiros meses de 2003 conforme tabela 2.

Tabela 2. Comparativo dos abates caprino nos anos de 2001, 2002 e 2003

Meses/Ano

2001

(cabeças)

2002

(cabeças)

Variação

(%)

2003

Variação

2002/2003

(%)

Janeiro

11179

11597

3,74

19094

64,65

Fevereiro

6127

6151

0,39

9951

61,78

Março

4759

6267

31,69

-

-

Abril

4721

11652

146,81

-

-

Maio

4390

10399

136,88

-

-

Junho

6021

8614

43,07

-

-

Julho

8001

12012

50,13

-

-

Agosto

7126

7116

-0,14

-

-

Setembro

5706

8025

40,64

-

-

Outubro

7602

9058

19,15

-

-

Novembro

14179

18479

30,33

-

-

Dezembro

41616

62768

50,83

-

-

Total

121427

172138

41,76

-

-

Fonte: SENASA, 2004

Os abates caprinos no ano de 2002 como se apresenta na tabela 3. tem uma maior concentração na província de Córdoba com 85.256 cabeças abatidas representando 48%, seguido da província de Mendonça com 68.832 animais.

 

 

Na tabela 4 observa-se o número de frigoríficos, abatedouros e entrepostos privados e públicos de caprinos existentes neste país. Contudo, não quer dizer que todos estes estabelecimentos estejam operacionalizando abates a níveis satisfatório ou mesmo fechados. O interessante é saber que na Argentina o abate clandestino de caprino não é uma atividade que ameaça os empreendimentos privados e a segurança alimentar, ao contrário do que acontece no Brasil e principalmente no nordeste. O abate clandestino de caprino só será combatido quando o ambiente institucional da cadeia produtiva, ou melhor, o aparato legal representado pelo poderes público municipal e estadual, disponibilizar equipamentos para abater caprinos e ovinos em seus abatedouros municipais ou mesmo construindo pequenos abatedouros para abates de caprino e ovinos nas áreas onde a atividade caprina e ovina é a principal fonte de agronegócio.

Tabela 4.  Lista das plantas agroindustriais de caprinos     

Razão Social

Localidade

Província

1. Matadero Brunt S.R.L.

Gaiman

Chubut

2. Matadero Frigorífico San Rafael S.A

El Tropezon

Mendoza

3. Maxifarm S.A.

General Pico

La Pampa

4. Mister Food S.A.

Canuelas

Buenos Aires

5. Moyano Antonio del Rosario

Dean Funes

Cordoba

6. Naser Hnos. S.A.

Coquimbito

Mendoza

7. Nuxtel SA

Gaiman

Chubut

8. Peruzotti Hermanos S.R.L.

Dolavon

Chubut

9. Roxana Noemi Cristante

Pilar

Santa Fe

10. San Javier Caprinos S.R.L.

Villa Dolores

Cordoba

11. Establecimiento Jesús Maria S.R.L

Machagai

Chaco

12. Frigorífico los Nogales S.R.L

Jesús Maria

Cordoba

13. Frigorífico U. Ca. Co. SRL

General Conesa

Rio Negro

14. Gianni Bragoli

Gaiman

Chubut

15. Hica S.A

Nogoya

Entre Rios

16. Infriba SA

Barrio Batan

Buenos Aires

17. Jesús Arroyo Sacia

Bariloche

Rio Negro

18. Juan Bautista Picco e Hijo S.R.L

San Luis

San Luis

19. Los Chanares S.A

Villa de la Quebrada

San Luis

20. Los Pinitos SA

Cruz del Eje

Cordoba

21. Agropecuaria Chenque S.A

Comodoro Rivadavia

Chubut

22. Agropecuaria San Jorge SA

La Rioja

La Rioja

23. Agrorres S.R.L

Ayacucho

Buenos Aires

24. Arminda Yamira Dip

Plottier

Neuquen

25. C Y L Farming S.A

Puerto Madryn

Chubut

26. Cabritera Ojo de Agua SRL

Ojo de Aguia

Santiago del Estero

27. Carlos Maria Abdala

Trelew

Chubut

28. Coop. Trento Chaqueno Ltda

Resistencia

Chaco

29. Cooperativa Agropecuária Centenário Limitada

Neuquen

Neuquen

30. Distribuidora de Carnes Del Sur S.R.L

Trevelin

Chubut

31. Subpga S.A.C.I.E. E.I

Berazategui

Buenos Aires

Fonte: SAGPyA, 2004

Apesar de existir algumas plantas agroindustriais funcionando com poucos abates ou mesmo em situação precária ou fechada, pode-se observar o desempenho de alguns frigoríficos caprinos com abates acima de 16.000 cabeças por ano, conforme tabela 5.

Mais uma vez insisto nas comparações com o agronegócio caprino do Brasil, salvo engano no momento não existe nenhum frigorífico brasileiro abatendo mais que 14.000 cabeças de caprino por ano.

Tabela 5. Desempenho dos frigoríficos de caprinos com abates acima de 16.000 cabeças/ano -  2001

Razão Social

Localidade

Provincia

2001

Fco. San Javier Caprinos

V. Dolores

Cordoba

26.074

Fco. Lãs Nogales

Colon

Cordoba

18.245

Antonio Del Rosário Moyono

Dean Funes

Cordoba

16.747

Los Pintos S.A

Catrilo

La Pampa

34.027

Matad. Fco. Reg. Malargue

Malargue

Mendoza

17.388

Fonte: SENASA, 2004

 

 

Tabela 3. Desempenho dos abates de caprinos nas principais províncias cabeças/ano -  2002

Províncias

Abates

(em cabeças /2002)

Córdoba

82000

Mendonça

68832

Santiago Del Estero

15000

São Luis

4780

Buenos Aires

1526

Total

172138

  Fonte: SENASA, 2004

Os números do agronegócio Argentinos nos possibilitam realizar algumas reflexões e comparações com a nossa cadeia produtiva caprina: Será que não seria o momento de municípios com populações caprina e ovina acima de 100.000 cabeças serem obrigados a ter um abatedouro no nordeste?  Porque o Brasil não consegue exportar carne caprina com um rebanho superior a sete milhões de cabeças? Porque projetos com mais de cinco anos de existência e recursos abundantes do poder público e privado como o de Pilar-Jaguarari e o de Jussara ambos na Bahia, ainda não deslancharam? Enfim, penso que o PROGANO da Argentina poderia ser um exemplo de parceria público – privado a seguir por alguns gestores públicos e privados do agronegócio caprino do nordeste brasileiro. 

 

* Professor de Agronegócio da FTC e Presidente do Instituto Brasileiro de Estudos do Agronegócio Caprino e Ovino (IBRAECO)