POTENCIALIDADES DOS MERCADOS PARA OS PRODUTOS DERIVADOS DE CAPRINOS E OVINOS

Rubênio Borges de Carvalho [1]

1. Introdução

Nos últimos dez anos, ocorreram mudanças significativas para a consolidação da cadeia produtiva da ovinocaprinocultura no Brasil. Nesse período, a atividade despertou maior atenção de governantes, técnicos e produtores, acarretando mudanças significativas em alguns segmentos dessa atividade, podendo-se destacar: intensificação da pesquisa voltada para produção de animais e beneficiamento de seus produtos, crescimento do nível de organização dos produtores, aumento da absorção das novas tecnologias, maior atuação dos agentes financeiros para facilitar o acesso ao crédito e, o mais importante, aumento da demanda por produtos derivados de caprinos e ovinos.

O abastecimento dos mercados urbanos de carne, leite e seus derivados constitui-se no foco principal da atividade, onde a carne assume uma posição de destaque ao ser comercializada em ambientes especializados a preços compensadores. Contudo, maiores preços são acompanhados de algumas exigências a mais, relacionadas ao padrão de qualidade desse produto (carne oriunda de animais jovens em bom estado nutricional e sanitário) e a regularidade de oferta.

O momento atual, embora bastante favorável aos produtores, é também um momento de grande expectativa para toda a cadeia produtiva deste agronegócio. Essa expectativa decorre da necessidade de modernização de importantes elos desta cadeia, principalmente naqueles segmentos localizados no pós-porteira das fazendas, nas atividades agro-industriais, nas ações mercadológicas, na distribuição e comercialização dos produtos.

As agroindústrias representadas pelos frigoríficos, curtumes e laticínios, desempenham diferentes papéis em complementação às atividades produtivas. Os frigoríficos, existem em quantidades ainda tímidas, operam com elevada capacidade ociosa e funcionam de forma pouco articulada com os produtores. Os laticínios se caracterizam como unidades pequenas e, em razão da limitada produção de leite de cabra e do baixo consumo do leite e seus derivados inspiram pouca confiança aos investidores. Os curtumes, por sua vez, representam o segmento industrial mais desenvolvido desse agronegócio, contudo, enfrentam problemas com a baixa qualidade das peles ofertadas e com ociosidade na capacidade instalada. A baixa qualidade das peles provocam oscilações nos preços desestimulando os produtores a melhorar a qualidade das mesmas.

A cadeia produtiva ressente-se de informações mercadológicas objetivas que chamem a atenção dos consumidores para a excelência das carnes caprina e ovina., sendo a primeira reconhecida como uma das carnes vermelhas de menor teor de colesterol e as duas preferidas pela qualidade de boa digestibilidade. Também, faz-se necessário a realização de novas pesquisas de mercado buscando quantificar o consumo destes produtos e mostrar aos investidores o potencial do mercado nacional.

Podemos destacar como fator positivo para o desenvolvimento desse agronegócio o interesse crescente dos consumidores em demandar os produtos carne, leite e derivados oriundos da ovinocaprinocultura. Contudo, para que o desenvolvimento ocorra com maior brevidade, ações conjuntas envolvendo o poder público, a iniciativa privada e demais parceiros devem ser implementadas buscando a integração de todos os segmentos da cadeia produtiva.

Buscando colaborar com informações relacionadas ao agronegócio da ovinocaprinocultura, o presente trabalho faz uma abordagem dos produtos: carne, pele e leite derivados de caprinos e ovinos, nos mercados interno e externo, ressaltando suas características, vantagens, oportunidades, valores exportados e importados e obstáculos existentes na cadeia produtiva. Também, são apresentadas informações de pesquisa de mercado, realizadas em algumas cidades brasileiras, que revelam o consumo de carne caprina e ovina. Devido as circunstâncias mais favoráveis ao mercado interno, este é alvo das análises com mais detalhes.

2. Carnes de Caprinos e Ovinos

2.1 Aspectos Gerais da Produção e Comercialização das Carnes de Caprinos e Ovinos

A demanda por carnes de caprinos e ovinos, em cortes padronizados; bem como por vísceras devidamente processadas, embaladas e comercializadas de forma resfriada ou congelada, vem apresentando crescimento considerável nas grandes cidades do Nordeste e do Sudeste do Brasil, principalmente nas áreas habitadas pelo segmento populacional detentor de maior poder aquisitivo.

No entanto, segundo Zapata et al. (1995), o consumo das carnes de caprinos e ovinos no Nordeste é ainda classificado como baixo em decorrência da baixa qualidade do produto ofertado, que é resultado de deficientes critérios de seleção dos animais para o abate, estocagem e comercialização das carnes e do baixo nível de higiene nas operações de abate e comercialização, tendo verificado que no comercio varejista da cidade de Fortaleza 48,5% da carne caprina é fornecida aos consumidos sem o uso de embalagem, o que expressa a baixa qualidade dos produtos em termos de higiene.

Estudando o circuito de comercialização de carnes caprina e ovina nas cidades de Petrolina (PE) e Juazeiro (BA), Moreira et al. (1998), verificaram a inexistência de inspeção no local de vendas destes produtos, fazendo-se necessário uma maior atuação das autoridades sanitárias nesse setor.

Outros fatores limitantes afetam a comercialização das carnes de caprinos e ovinos, podendo-se destacar: a falta de padronização de carcaças, em razão do baixo padrão racial dos rabanhos; a irregularidade no fornecimento de carne e derivados ao mercado; o abate clandestino, que concorre deslealmente com frigoríficos industriais; a ausência de promoção comercial e os elevados preços praticados no mercado, impossibilitando a abertura de mercado e reduzindo a competitividade com os produtos concorrentes.

A oferta de carnes de caprinos e ovinos oriundas de animais abatidos em frigoríficos industriais licenciados pelos Serviços de Inspeção Federal (SIF) ou Inspeção Estadual (SIE), se caracteriza como um fator importante para o crescimento da demanda, assegurando aos produtos industrializados, um elevado padrão de qualidade sanitária.

Em função do crescimento da demanda por essas carnes, produtos industrializados têm surgido no mercado, desenvolvidos por instituições de pesquisa como o Centro Nacional de Pesquisa de Caprinos/EMBRAPA; a Universidade Federal do Ceará, através do Departamento de Tecnologia de Alimentos; a Universidade Federal da Paraíba, através do Núcleo de Pesquisa de Processamento de Alimentos (NUPPA) ou ainda pela iniciativa privada. Entre os produtos desenvolvidos destacam-se: lingüiças frescal e calabresa, defumados, manta de carne seca, hambúrguer e, mais recentemente, os pratos preparados (arroz de carneiro, buchada, sarapatel, panelada, entre outros).

Os produtos industrializados e os pratos preparados representam uma alternativa importante para o aproveitamento da carne dos animais fora do padrão de abate, ou seja, aqueles que por razões diversas não se prestam para a produção de cortes padronizados.

A indústria de carne de ovinos e caprinos tem como alvo, um mercado em plena expansão que até pouco tempo se caracterizava como “mercado de subsistência”, no qual o produtor não conseguia ter excedentes para venda, em âmbito nacional como “mercado de carnes exóticas”, uma vez que não havendo oferta suficiente a preços adequados, não se conseguiu estabelecer o hábito de consumo, como conseguiram as carnes de frango, bovino e suíno, que passaram a fazer parte do cardápio diário da população brasileira em geral.

Os clientes potenciais dessa indústria de carne são as grandes redes de supermercados, os restaurantes e hotéis; as casas de delicatessens, as lojas de conveniências etc. Pelas características que tem, principalmente, baixos teores de gorduras, colesterol, fácil digestibilidade etc, a carne caprina não terá dificuldade de vencer os preconceitos que a cercam, tão logo haja oferta suficiente para consolidar o processo histórico desse hábito alimentar.

Além do esforço direto às cadeias de supermercados e outros agentes do comércio, também deverá ser levado à população em geral a informação precisa e diversificada nas formas, que assegure a disposição de testar uma alternativa alimentar saudável e economicamente vantajosa.

Os consumidores das carnes de caprino e ovino, se caracterizam pelo alto nível de exigência com a qualidade, uma vez que atendam a um público classe A e B, que muito bem informado estará sempre atento à qualidade do produto expressa no processo de produção e embalagem. O consumidor da região Nordeste, continuará por algum tempo consumindo produto sem qualidade, comprado em feiras e açougues do interior sem qualquer controle sanitário, uma vez que esta é a tradição local que demandará muito esforço para mudar, através da conscientização da população.

A questão promocional assume grande importância, onde o marketing deve explorar o baixo teor de colesterol da carne e a característica de fácil digestibilidade. Isto representa um fator importante de atratividade de mercado, visto que o apelo de saúde sempre influi de forma relevante no comportamento do consumidor, especialmente naqueles de nível cultural mais elevado. Assim, o esforço de marketing deverá se concentrar nas classes A e B, inicialmente, explorando as vantagens das carnes caprina e ovina em relação as demais carnes. As classes populares, virão oportunamente a reboque, como tem sido sempre em todos os processos de formação de opinião pública e desenvolvimento de mercados desenvolvidos no Brasil.

O consumo per capita de carne ovina no Brasil foi estimado em 0,7kg, pouco representativo em relação ao consumo das carnes bovina, frango e suína, estimado em 36kg, 24kg e 10kg, respectivamente SEBRAE/DF (1998). Assim, existe um grande espaço para a expansão do consumo de carne ovina no mercado de carnes.

O aumento no consumo interno resultou em crescimento das importações de carne ovina. Para o abastecimento do mercado interno o Brasil vem importando ovinos vivos para abate, carcaças de ovinos resfriadas ou congeladas e carne desossada resfriada ou congelada, conforme mostra a Tabela 1.

Tabela 1 – Importações de carne de ovinos no período de 1992 a 2000.

Anos

Ovinos vivos

(t)

Carcaças de borregos

(t)

Total de carcaças

(t)

1992

119,5

163,9

2.075,9

1993

2.180,8

309,9

3.702,6

1994

4.628,9

823,5

4.694,5

1995

1.630,9

444,0

3.869,3

1996

5.732,0

325,4

5.715,1

1997

8.674,1

520,6

4.961,2

1998

5.179,4

530,4

6.148,3

1999

4.056,1

231,7

4.343,5

2000

6.245,9

278,6

8.216,4

Fonte: Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio - MDIC

A ovinocaprinocultura dada a sua importância sócioeconômica para a região Nordeste carece de uma política de desenvolvimento que priorize: a oferta contínua de carnes com elevado padrão de qualidade; a competitividade de preços em relação aos produtos concorrentes; a comercialização de carnes submetidas aos serviços de inspeção federal ou estadual e ações voltadas para promoção comercial (prospecção de mercado, adequação de produtos, marketing e publicidade, participação em feiras nacionais e internacionais de alimentos, entre outras).

Uma estratégia de desenvolvimento semelhante ocorreu no agronegócio da carne do frango, no qual a partir de uma política de estímulo à produção associada à competitividade de preço, atingiu crescimento de 178% no consumo per capita no período de 1992 a 2002, conforme dados apresentados na Tabela 2.


Tabela 2 - Consumo per capita anual de carne de frango no Brasil (1992 – 2002)

Ano

Frango(kg/hab.)

1992

16,8

1993

18,1

1994

19,2

1995

23,3

1996

22,2

1997

24,0

1998

16,3

1999

29,1

2000

29,9

2001

29,5

2002

29,9

Fonte: União Brasileira de Avicultura (UBA)

Atualmente, de acordo com a política governamental, o aumento das exportações é de suma importância como forma de reduzir o “déficit” do balanço de pagamentos. Dentre os produtos agropecuários com potencialidade no mercado externo, configuram as carnes caprina e ovina. De fato, nos países que apresentam alta renda per capita, é crescente a demanda por carnes, e o Brasil, pela condição favorável para produção, poderia se transformar em importante exportador desses produtos.

Finalmente, vale ressaltar algumas ações importantes para estimular o crescimento da produção e comercialização das carnes de caprinos e ovinos: organização dos produtores em associações e cooperativas; capacitação tecnológica e gerencial; melhoramento genético dos rebanhos; acesso à linhas de crédito com juro diferenciados; certificação de qualidade das carnes; política de marketing para as carnes de caprinos e ovinos e o combate aos locais de abate clandestino.

2.2. Valores Nutricionais das Carnes de Caprinos e Ovinos

As vantagens comparativas, em termos nutricionais, da carne de caprino relativamente às demais carnes consumidas no mercado, estão relacionadas aos baixos teores de calorias e colesterol, a alta digestibilidade, além de elevados níveis de proteína e ferro. Excluindo-se o componente cultural no hábito alimentar nordestino e brasileiro no que se refere ao consumo de carne de caprinos e ovinos – um aspecto mercadológico da maior relevância consiste no envelhecimento da população do País, fato que resulta na busca natural por alimentos mais saudáveis, fato que se coaduna com um potencial aumento no consumo das carnes em consideração, sobretudo quando se considera os fatores acima mencionados.

Sequenciando a presente linha de argumentação, é válido salientar os resultados da pesquisa publicada pelo Dairy Goat Journal, citado por Moreira et al. (1998), a qual demonstra que dos cinco principais tipos de carnes consumidos no Brasil, a carne de caprino é uma das que apresenta os mais baixos níveis calóricos e de colesterol, apresentando em cada 100g (cem gramas) de carne assada os seguintes quantitativos, conforme apresentado na Tabela 3, a seguir.


Tabela 3 - Componentes de diferentes tipos de carne.

Carne assada (100g)

Caloria

(kcal)

Gordura

(g)

Gordura Saturada

(g)

Proteína

(g)

Ferro

(g)

Caprino

131

2,76

0,85

25

3,54

Ovino

252

17,14

7,82

24

1,50

Bovino

263

17,14

7,29

25

3,11

Suíno

332

25,72

9,32

24

2,90

Frango

129

3,75

1,07

25

1,62

Fonte: Dairy Goat Journal, Jan/Fev 1996

Moura (1998), estudando as características químicas e físico-químicas da carne de caprinos SRD (sem raça definida) identificou que a carne caprina é magra, tem pouca gordura subcutânea, intramuscular e extramuscular. Apresenta boa textura, alto valor nutritivo, principalmente em proteína, minerais e vitaminas, além de boa digestibilidade de seus constituintes.

2.3. Potencialidades do Mercado (Informações Disponíveis e Projeções)

É fato comum nos mercados em fase de abertura a limitação de informações estatísticas e/ou de pesquisas de dimensionamento do mercado. No caso da ovinocaprinocultura, apesar de serem bastante reduzidas, algumas pesquisas foram realizadas, possibilitando dimensionar o consumo de algumas cidades.

No presente contexto, pesquisa direta realizada em Fortaleza pelo Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas do Estado do Ceará - SEBRAE/CE (1998), estimou um consumo per capita anual de 0,590kg para a carne ovina e 0,375kg para a carne caprina, totalizando um consumo per capita anual de 0,965kg. Com base no consumo per capita estimado em 1998 e considerando que o mesmo tenha se mantido constante, estima-se que o consumo atual da cidade de Fortaleza seja de aproximadamente 2.060 t.

Em trabalho de pesquisa desenvolvido por Moreira et al. (1998), nas cidades de Juazeiro (BA) e Petrolina (PE), os resultados obtidos revelaram um consumo per capita anual de 10,81kg em Juazeiro e 11,73kg em Petrolina, representando um consumo atual em torno de 1.880 t em Juazeiro e 2.500 t em Petrolina, considerando a população atual destas cidades. Esse fato demonstra o elevado grau de condicionamento cultural na alimentação do nordestino, no que se refere ao consumo de carnes caprina e ovina. Se o consumo per capita mostra-se significativamente inferior nos maiores centros urbanos – as capitais, por exemplo -, isso se deve bem mais a uma demanda reprimida (insuficiência na oferta), que propriamente da necessidade de introdução de novos hábitos de consumo.

No Distrito Federal, o consumo anual de carne ovina, em 1998, foi estimado em 300 t, conforme levantamento realizado pelo SEBRAE/DF (1998), representando um consumo per capita anual em torno de 0,150kg. A partir do consumo per capita estimado e da população atual da cidade de Brasília estima-se que o consumo atual da carne ovina seja de 310 t, dada a condição de que o consumo per capita tenha se mantido constante. Este mercado se apresenta como um centro consumidor bastante atrativo uma vez que grande parte da população se origina do Nordeste, onde o consumo de carnes ovinas e caprinos é uma tradição, alem disso, em Brasília se concentra uma das mais elevadas renda per capita do Brasil.

De acordo com estudo realizado pelo SEBRAE/RN (2000) na cidade de Natal (RN), o consumo per capita, foi estimado em 0,467kg para carne caprina e 0,430kg para a carne ovina, totalizando 0,897kg per capita ano. Projetando o consumo total com base na população atual daquela cidade, estima-se que o mesmo atinja 330 t.

Finalmente, em estudo de projeção de oferta e demanda potencial de carne de ovinos e caprinos no Nordeste, Campos (1998) confrontou estimativas obtidas de oferta e demanda, no período 1992 a 2000. As projeções estimadas para o ano 2000 no Nordeste apresentam um déficit de 12,2 mil toneladas, conforme pode ser observado na Tabela 4.

Tabela 4 - Balanço entre Oferta e Demanda Estimadas de Carnes Caprina e Ovina para o Nordeste.

Ano

Nordeste

 

Oferta (1000t)

Demanda (1000t)

Balanço (1000t)

1992

36,4

49,0

-12,6

1993

37,5

49,8

-12,3

1994

38,4

50,5

-12,1

1995

39,2

51,2

-12,0

1996

40,0

52,0

-12,0

1997

40,9

52,9

-12,0

1998

41,8

53,7

-11,9

1999

42,6

54,6

-12,0

2000

43,4

55,6

-12,2

Os dados apresentados acima, obtidos através de pesquisas diretas ou de projeções por modelos matemáticos, revelam a existência de um mercado interno considerável para as carnes de caprinos e ovinos no Nordeste. Não se tem informação de pesquisas de mercado destas carnes nas demais cidades do Nordeste, no entanto, dado o crescente interesse de supermercados, casas de carnes, restaurantes, hotéis em comercializar estas carnes, bem como a corrida dos consumidores por produtos saudáveis, considera-se que a demanda apresentada por Campos (1998) estimada em 55,6 mil toneladas para o ano 2000 parece ser bastante realista.

2.4. Mercado Internacional

O mercado de carne tem se mostrado consumidor tanto no Brasil como no Exterior. Assim, o abate mundial de caprinos e ovinos em 1998 foi de 516 milhões de cabeças, verificando-se um aumento de consumo de 22,1% no decênio 1989 a 1998. Os principais produtores foram China, Índia, Nova Zelândia e Austrália (CNPq, 2001).

No mercado internacional observa-se amplas possibilidades para a colocação do produto nacional, desde que atenda às exigências de qualidade, quantidade ofertada, padronização dos produtos derivados da carne e continuidade na oferta. Entre os grandes importadores destacam-se os mercado do Oriente Médio, considerado um dos mais atrativos do mundo, devido a fatores religiosos, hábito de consumo domiciliar, elevado poder aquisitivo, limitação de área para exploração de atividades agropecuárias, preços atraentes, entre outros. Os Emirados Árabes Unidos além de importadores para consumo interno, também atuam como entreposto comercial, atendendo aos vários países próximos do Oriente Médio e do Oceano Índico. Além destes mercados, encontra-se no Brasil significativo contingente populacional de descendência Árabe, habitando, sobretudo, a região Sudeste. Segundo Barros (1998), a população brasileira de origem árabe, atinge 8 milhões de habitantes, entre eles 2 milhões são muçulmanos. Estes, poderão ser consumidores potenciais das carnes de caprinos e ovinos produzidas no mercado interno, desde que o processo de abate observe o método exigido.

A matança deverá seguir o ritual muçulmano conhecido como “Método Halal”, no qual não é realizada a insensibilização. A morte dos animais é conseqüência da operação de sangria realizada com instrumento próprio utilizado neste método de abate.

Os Emirados Árabes Unidos também importam caprinos e ovinos vivos de diversos países durante o ano todo. De acordo com estatísticas elaboradas pelo setor comercial da Embaixada do Brasil naquele país, em 1996, foram importados US$ 52,8 milhões em caprinos e ovinos vivos pelos portos de Abu Dhabi, Sharjah e Dubai. A Austrália foi o principal exportador com um total de US$ 33,7 milhões.

De acordo com Barros (1998), a distância entre os portos de Recife (PE) e Dubai eqüivale a 8.072 milhas náuticas, enquanto a distância entre os portos da Austrália por onde são exportados animais vivos para os Emirados Árabes varia entre 8.000 e 8.800 milhas náuticas. Isto proporciona ao Nordeste uma condição importante para torna-lo competitivo com os animais exportados da Austrália. No entanto, para que isso ocorra é necessário aumentar os rebanhos caprinos e ovinos, melhorar a qualidade dos animais para comercialização e assegurar oferta contínua de animais para exportação.

A importação de animais vivos aumenta consideravelmente durante o “Aid al Adha”, ou feriado do sacrifício, que leva milhões de muçulmanos a visitar a cidade de Meca e, por tradição religiosa, devem sacrificar um animal a Deus. Enquanto, a importação de carne aumenta durante o inverno (setembro a maio) e durante o mês sagrado do “Ramadã”.

Não existe um padrão internacional generalizado para a participação no mercado de carnes. Na Europa a carne suína é a mais consumida, enquanto nos Estados Unidos é o frango. No Brasil e na Argentina a carne bovina é a preferida, enquanto que na Nova Zelândia a carne ovina tem o maio consumo per capita do mundo.

De acordo com os dados apresentados na Tabela 5, a relação do consumo per capita mundial é bastante desigual, vemos que em países ricos como os Estados Unidos e o Japão o consumo é de 0,5kg e 0,6kg, respectivamente, mostrando que o consumo está intimamente relacionado com o hábito alimentar e não com a renda da população desses países.

Tabela 5 – Consumo per capita anual de carne de ovino em 1996.

País

Consumo

(kg)

Nova Zelândia

32,5

Austrália

16,6

Grécia

14,5

Arábia Saudita

13,0

Irlanda

8,4

Espanha

6,5

Reino Unido

6,3

Argentina

1,7

Brasil

0,7

Japão

0,6

Estados Unidos

0,5

Fonte: SEBRAE/DF - Ovinocultura no Distrito Federal, Brasília, 1998

De acordo com dados da FAO (1995), foram comercializados 24,9 milhões de animais no mercado mundial, representando um valor total de US$ 1,59 bilhões. As importações de animais vivos foram efetuadas principalmente pelos países da Ásia, Europa e África, destacando-se como principais importadores: Arábia Saudita (5,6 milhões de cabeças), Itália (2,8 milhões de cabeças), Líbia (2,1 milhões de cabeças), França (1,8 milhões de cabeças), Espanha (1,5 milhões de cabeças) e Emirados Árabes Unidos (1,3 milhões de cabeças).

Em termos de carne, o grande mercado importador é representado pelos países da Europa que, em 1995, adquiriram 411 mil toneladas, seguindo os da Ásia com 213 mil toneladas.

3. Peles de Caprinos e Ovinos

3.1. Aspectos Gerais da Produção e Comercialização de Peles de Caprinos e Ovinos no Nordeste

As peles de ovinos e caprinos do Nordeste são valorizadas no mercado pela maior elasticidade, resistência e textura apresentadas, prestando-se, assim, para um maior número de produtos nas indústrias de vestuário e de calçados. No entanto, apesar do reconhecimento de sua qualidade, as peles sofrem grandes depreciações na comercialização, devido aos altos índices de defeitos que são decorrentes de condições inadequadas do sistema de produção adotado, bem como nas fases de abate, conservação e armazenamento.

O sistema de produção predominante no Nordeste consiste na criação extensiva, sendo os animais expostos às condições adversas da vegetação, ao arame farpado das cercas de contenção e, em alguns casos, os animais são marcados na pele para facilitar a identificação. Além destes fatores, algumas doenças provocam danos às peles, a exemplo da miíase (bicheira), da sarna demodéfica e da linfadenite caseosa.

O sistema de abate de animais predominante no Nordeste é feito de forma artesanal e com o mínimo de cuidado, prejudicando a qualidade e aumentando a proporção de peles consideradas como refugo. Os animais são abatidos em locais impróprios e com técnicas pouco eficientes, deixando as peles sujas e manchadas. Do mesmo modo o uso de facas e canivetes aguçados são também responsáveis por cortes e perfurações prejudiciais.

A diversidade de raças exploradas, ocasionam a produção de peles diferentes em tamanho, espessura e textura, também contribui para a baixa qualidade da pele.

A comercialização de peles “in natura”, no Nordeste, é realizada por intermediários que revendem o produto em postos de compras pertencentes aos curtumes ou aos exportadores. Os curtumes adquirem as peles dos produtores ou dos intermediários e, após o beneficiamento as negociam com comerciantes do mercado interno e externo, ou com a indústria manufatureira.

O baixo preço da pele praticado por intermediários, em determinados períodos do ano, provoca insatisfação dos produtos que, por sua vez, sentem-se desestimulados a adotar as tecnologias capazes de melhorar a qualidade da pele.

De acordo com BNB/PDSORN (1999), 40% das peles processadas são consideradas refugo, representando um baixo índice de aproveitamento. Isto acarreta a desvalorização da pele “in natura”, impossibilitando a indústria de incrementar maior remuneração ao valor da pele.

As indústrias de curtume instaladas no Nordeste se deparam com problemas de ociosidade em sua capacidade operacional instalada. Esta fato tem como causa principal, a reduzida oferta de peles “in natura” com bom padrão de qualidade, caracterizando a existência de uma demanda insatisfeita por essa matéria-prima. De acordo com dados da Associação das Indústrias de Couro do Norte e Nordeste, existe uma capacidade instalada para processar anualmente 12 milhões de peles, sendo atualmente processada em torno de 8 milhões por ano, o que provoca uma capacidade ociosa de aproximadamente 33%. Na região Sul, a produção de peles curtidas em 2000 de aproximadamente 1,8 milhões de peles e os curtumes funcionaram com uma capacidade ociosa em torno de 50%.

As peles de ovinos e caprinos, industrializadas no Nordeste, são exportadas preferencialmente na forma de wet-blue, que corresponde ao couro curtido. Embora algumas indústrias realizem o processo de acabamento, sendo produzidos vários e importantes tipos de couros, tais como: marroquins, camurças, pergaminhos, algumas napas, pelica etc, utilizados na produção de calçados, bolsas, vestuários, entre outros.

Um fator importante que poderá estimular o crescimento do mercado de peles na região Nordeste consiste na instalação de fábricas de calçados oriundas das regiões Sul e Sudeste do país, atraídos pelos incentivos fiscais concedidos pelos estados nordestinos, especialmente o Ceará e a Bahia, poderá ser mais uma alternativa para a comercialização de peles beneficiadas de ovinos e caprinos.

Em razão do elevado índice de defeitos observados nas peles de caprinos e ovinos, apresenta-se como alternativa para o aproveitamento destas peles o couro atanado, que é obtido pelo processo de curtimento vegetal a base de tanino.

O couro atanado é largamente utilizado em produtos artesanais (bolças, calçados etc), assim como em produtos de montaria.

Outra vantagem do curtimento vegetal consiste na reduzida carga de poluentes dos resíduos gerados pelo processo de curtimento, quando comparado ao curtimento a base de cromo para produção do wet blue. Com isso, a implantação de curtume que busque a produção de wet-blue exige maiores investimentos na construção da estação de tratamento dos efluentes.

Finalmente, ressalta-se algumas ações importantes para expandir a oferta das peles “in natura” de caprinos e ovinos: organização dos produtores em associações e cooperativas; capacitação tecnológica voltada para o manejo dos rebanhos, processo de esfola, conservação e armazenamento das peles; maior remuneração aos produtores; definição de preços diferenciados para aquisição das peles, buscando estimular a melhoria da qualidade e o combate aos locais de abate clandestino.

3.2. Os Mercados Nacional e Internacional

Os principais países importadores das peles curtidas e acabadas produzidas no Nordeste são a Itália, a Espanha, a Inglaterra, Portugal e Estados Unidos. A pesada carga tributária e os custos de exportação, componentes do chamado “Custo Brasil”, têm influído na redução das margens de lucro dos exportadores brasileiros, embora na atualidade isso não se constitua no principal entrave para o escoamento da pele produzida no país, concorrendo muito mais para sua importação.

As exportações totais de peles beneficiadas de ovinos e caprinos, ao longo do período 1992 a 2002, evoluíram de forma diferenciada. De acordo com dados da Tabela 6, ocorreu um crescimento das exportações de peles ovinas e um decréscimo das peles caprinas. Este comportamento se deu em razão de uma queda na demanda por nossas peles caprinas, provocada pela perda de competitividade para as peles oriundas de países africanos, como Nigéria, Quênia, África do Sul, Etiópia e Burkinafaso e países asiáticos a exemplo da Índia, China, Arábia Saudita, Indonésia, do Irã, Nepal e Paquistão, que exportam a preços mais competitivos e com padronização no tamanho das peles, aspecto este sempre bem vistos pelo setor. Os principais estados exportadores são a Bahia, o Piauí e o Ceará, que foram responsáveis, em 2002, por aproximadamente 88% do total exportado.

Tabela 6 – Valor das Exportações de peles beneficiadas (curtidas, recurtidas e acabadas) de caprinos e ovinos do Nordeste.

Ano

Valor exportado

 

Ovinos

Caprinos

Total

 

(US$ milhão)

(US$ milhão)

(US$ milhão)

1992

13,0

6,7

19,7

1993

13,0

6,0

19,0

1994

10,4

4,6

15,0

1995

9,4

3,5

12,9

1996

13,0

3,8

16,8

1997

12,0

2,2

14,2

1998

6,8

3,2

10,0

1999

7,1

1,8

8,9

2000

8,5

0,4

8,9

2001

10,0

1,6

11,6

2002

6,3

1,2

7,5

Fonte: Análise de Informações de Comércio Exterior – ALICE/SERPRO.

Tendo em vista a capacidade ociosa das indústrias de curtume e a perda de competitividade de nossas peles, em relação a preço e qualidade, as indústrias passaram a realizar importações de peles curtidas (wet blue), conforme pode ser observado na Tabela 7.

Os dados mostram que houve uma tendência na importação de peles caprinas sobre as ovinas, demonstrando que o mercado interno está propenso a demandar mais peles caprinas do que ovinas. As peles importadas passam pelos processos de recurtimento e acabamento e, em seguida, são exportadas.

Comparando os valores totais exportados e importados de peles caprinas e ovinas, no período de 1992 a 2002, constata-se que a balança comercial do setor teve superávit nos anos de 1992 e 1993, 1996, 1998 e 1999, 2001 e 2002. No último ano da série ocorreu um saldo positivo da ordem de US$2,3 milhões.


Tabela 7 – Valor das Importações de peles beneficiadas (curtidas) de caprinos e ovinos do Nordeste.

Ano

Valor exportado

 

Ovinos

Caprinos

Total

 

(US$ milhões)

(US$ milhões)

(US$ milhões)

1992

4,0

12,6

16,6

1993

5,0

9,8

14,8

1994

5,8

11,4

17,2

1995

11,4

9,3