POTENCIALIDADES
DOS MERCADOS PARA OS PRODUTOS DERIVADOS DE CAPRINOS E OVINOS
Rubênio
Borges de Carvalho
[1]
1.
Introdução
Nos últimos dez anos, ocorreram mudanças significativas
para a consolidação da cadeia produtiva da ovinocaprinocultura no
Brasil. Nesse período, a atividade despertou maior atenção de governantes,
técnicos e produtores, acarretando mudanças significativas em alguns
segmentos dessa atividade, podendo-se destacar: intensificação da
pesquisa voltada para produção de animais e beneficiamento de seus
produtos, crescimento do nível de organização dos produtores, aumento
da absorção das novas tecnologias, maior atuação dos agentes financeiros
para facilitar o acesso ao crédito e, o mais importante, aumento da
demanda por produtos derivados de caprinos e ovinos.
O abastecimento dos mercados urbanos
de carne, leite e seus derivados constitui-se
no foco principal da atividade, onde a carne assume uma posição de
destaque ao ser comercializada em ambientes especializados a preços
compensadores. Contudo, maiores preços são acompanhados de algumas
exigências a mais, relacionadas ao padrão de qualidade desse produto
(carne oriunda de animais jovens em bom estado nutricional e sanitário)
e a regularidade de oferta.
O momento atual, embora bastante favorável aos produtores,
é também um momento de grande expectativa para toda a cadeia produtiva
deste agronegócio. Essa expectativa decorre da necessidade de modernização
de importantes elos desta cadeia, principalmente naqueles segmentos
localizados no pós-porteira das fazendas, nas atividades agro-industriais,
nas ações mercadológicas, na distribuição e comercialização dos produtos.
As agroindústrias representadas pelos frigoríficos,
curtumes e laticínios, desempenham diferentes papéis em complementação
às atividades produtivas. Os frigoríficos, existem
em quantidades ainda tímidas, operam com elevada capacidade ociosa
e funcionam de forma pouco articulada com os produtores. Os laticínios
se caracterizam como unidades pequenas e, em razão da limitada produção
de leite de cabra e do baixo consumo do leite e seus derivados inspiram
pouca confiança aos investidores. Os curtumes, por sua vez, representam
o segmento industrial mais desenvolvido desse agronegócio, contudo,
enfrentam problemas com a baixa qualidade das peles
ofertadas e com ociosidade na capacidade instalada. A
baixa qualidade das peles provocam oscilações nos preços desestimulando
os produtores a melhorar a qualidade das mesmas.
A cadeia produtiva ressente-se de informações mercadológicas
objetivas que chamem a atenção dos consumidores para a excelência
das carnes caprina e ovina., sendo a primeira reconhecida como
uma das carnes vermelhas de menor teor de colesterol e as duas preferidas
pela qualidade de boa digestibilidade. Também, faz-se necessário a realização de novas pesquisas de mercado buscando quantificar
o consumo destes produtos e mostrar aos investidores o potencial do
mercado nacional.
Podemos destacar como fator positivo para o desenvolvimento
desse agronegócio o interesse crescente dos consumidores em demandar
os produtos carne, leite e derivados oriundos da ovinocaprinocultura.
Contudo, para que o desenvolvimento ocorra com maior brevidade, ações
conjuntas envolvendo o poder público, a iniciativa privada e demais parceiros devem ser implementadas
buscando a integração de todos os segmentos da cadeia produtiva.
Buscando colaborar com informações relacionadas ao agronegócio
da ovinocaprinocultura, o presente trabalho faz uma abordagem dos
produtos: carne, pele e leite derivados de caprinos e ovinos, nos
mercados interno e externo, ressaltando suas características, vantagens,
oportunidades, valores exportados e importados e obstáculos existentes
na cadeia produtiva. Também, são apresentadas informações de pesquisa
de mercado, realizadas em algumas cidades brasileiras, que revelam
o consumo de carne caprina e ovina. Devido as
circunstâncias mais favoráveis ao mercado interno, este é alvo das
análises com mais detalhes.
2.
Carnes de Caprinos e Ovinos
2.1 Aspectos Gerais da Produção e Comercialização das
Carnes de Caprinos e Ovinos
A demanda por carnes de caprinos e ovinos, em cortes
padronizados; bem como por vísceras devidamente processadas, embaladas
e comercializadas de forma resfriada ou congelada, vem apresentando
crescimento considerável nas grandes cidades do Nordeste e do Sudeste
do Brasil, principalmente nas áreas habitadas pelo segmento populacional detentor de maior poder
aquisitivo.
No entanto, segundo Zapata et al. (1995), o consumo
das carnes de caprinos e ovinos no Nordeste é ainda classificado como
baixo em decorrência da baixa qualidade do produto ofertado, que é
resultado de deficientes critérios de seleção dos animais para o abate,
estocagem e comercialização das carnes e do baixo nível de higiene
nas operações de abate e comercialização, tendo verificado que no
comercio varejista da cidade de Fortaleza 48,5% da carne caprina é
fornecida aos consumidos sem o uso de embalagem,
o que expressa a baixa qualidade dos produtos em termos de
higiene.
Estudando o circuito de comercialização de carnes caprina
e ovina nas cidades de Petrolina (PE) e Juazeiro (BA), Moreira et
al. (1998), verificaram a inexistência de inspeção no local de vendas
destes produtos, fazendo-se necessário uma maior atuação das autoridades
sanitárias nesse setor.
Outros fatores limitantes afetam a comercialização das
carnes de caprinos e ovinos, podendo-se destacar: a falta de padronização
de carcaças, em razão do baixo padrão racial dos rabanhos; a irregularidade
no fornecimento de carne e derivados ao mercado; o abate clandestino,
que concorre deslealmente com frigoríficos industriais; a ausência
de promoção comercial e os elevados preços praticados no mercado,
impossibilitando a abertura de mercado e reduzindo a competitividade
com os produtos concorrentes.
A oferta de carnes de caprinos e ovinos
oriundas de animais abatidos em frigoríficos industriais licenciados
pelos Serviços de Inspeção Federal (SIF) ou Inspeção Estadual (SIE),
se caracteriza como um fator importante para o crescimento da demanda,
assegurando aos produtos industrializados, um elevado padrão de qualidade
sanitária.
Em função do crescimento da demanda por essas carnes,
produtos industrializados têm surgido no mercado, desenvolvidos por
instituições de pesquisa como o Centro Nacional de Pesquisa de Caprinos/EMBRAPA;
a Universidade Federal do Ceará, através do Departamento de Tecnologia
de Alimentos; a Universidade Federal da Paraíba, através do Núcleo
de Pesquisa de Processamento de Alimentos (NUPPA) ou ainda pela iniciativa
privada. Entre os produtos desenvolvidos destacam-se: lingüiças frescal
e calabresa, defumados, manta de carne seca, hambúrguer e, mais recentemente,
os pratos preparados (arroz de carneiro, buchada, sarapatel, panelada,
entre outros).
Os produtos industrializados e os pratos preparados
representam uma alternativa importante para o aproveitamento da carne
dos animais fora do padrão de abate, ou seja, aqueles que por razões
diversas não se prestam para a produção de cortes padronizados.
A
indústria de carne de ovinos e caprinos tem como alvo, um mercado
em plena expansão que até pouco tempo se caracterizava como “mercado
de subsistência”, no qual o produtor não conseguia ter excedentes
para venda, em âmbito nacional como “mercado de carnes exóticas”,
uma vez que não havendo oferta suficiente a preços adequados, não
se conseguiu estabelecer o hábito de consumo, como conseguiram as
carnes de frango, bovino e suíno, que passaram a fazer parte do cardápio
diário da população brasileira em geral.
Os clientes potenciais dessa indústria de carne são
as grandes redes de supermercados, os restaurantes e hotéis; as casas
de delicatessens, as lojas de conveniências etc. Pelas características
que tem, principalmente, baixos teores de gorduras, colesterol, fácil
digestibilidade etc, a carne caprina não terá dificuldade de vencer
os preconceitos que a cercam, tão logo haja oferta suficiente para
consolidar o processo histórico desse hábito alimentar.
Além do esforço direto às cadeias de supermercados e
outros agentes do comércio, também deverá ser levado à população em
geral a informação precisa e diversificada nas formas, que assegure
a disposição de testar uma alternativa alimentar saudável e economicamente
vantajosa.
Os consumidores das carnes de caprino e ovino,
se caracterizam pelo alto nível de exigência com a qualidade,
uma vez que atendam a um público classe A e B, que muito bem informado
estará sempre atento à qualidade do produto expressa no processo de
produção e embalagem. O consumidor da região Nordeste,
continuará por algum tempo consumindo produto sem qualidade,
comprado em feiras e açougues do interior sem qualquer controle sanitário,
uma vez que esta é a tradição local que demandará muito esforço para
mudar, através da conscientização da população.
A questão promocional assume grande importância, onde
o marketing deve explorar o baixo teor de colesterol da carne e a
característica de fácil digestibilidade. Isto representa um fator
importante de atratividade de mercado, visto que o apelo de saúde
sempre influi de forma relevante no comportamento do consumidor, especialmente
naqueles de nível cultural mais elevado. Assim, o esforço de marketing
deverá se concentrar nas classes A e B, inicialmente, explorando as
vantagens das carnes caprina e ovina em relação as
demais carnes. As classes populares, virão
oportunamente a reboque, como tem sido sempre em todos os processos
de formação de opinião pública e desenvolvimento de mercados desenvolvidos
no Brasil.
O consumo per capita de carne ovina no Brasil
foi estimado em 0,7kg, pouco representativo em relação
ao consumo das carnes bovina, frango e suína, estimado em 36kg,
24kg e 10kg, respectivamente SEBRAE/DF (1998). Assim, existe um grande
espaço para a expansão do consumo de carne ovina no mercado de carnes.
O aumento no consumo interno resultou em crescimento
das importações de carne ovina. Para o abastecimento do mercado interno
o Brasil vem importando ovinos vivos para abate, carcaças de ovinos resfriadas ou congeladas e carne
desossada resfriada ou congelada, conforme mostra a Tabela
1.
Tabela 1 – Importações de carne de ovinos no período de 1992 a 2000.
|
Anos
|
Ovinos
vivos
(t)
|
Carcaças
de borregos
(t)
|
Total
de carcaças
(t)
|
|
1992
|
119,5
|
163,9
|
2.075,9
|
|
1993
|
2.180,8
|
309,9
|
3.702,6
|
|
1994
|
4.628,9
|
823,5
|
4.694,5
|
|
1995
|
1.630,9
|
444,0
|
3.869,3
|
|
1996
|
5.732,0
|
325,4
|
5.715,1
|
|
1997
|
8.674,1
|
520,6
|
4.961,2
|
|
1998
|
5.179,4
|
530,4
|
6.148,3
|
|
1999
|
4.056,1
|
231,7
|
4.343,5
|
|
2000
|
6.245,9
|
278,6
|
8.216,4
|
Fonte:
Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio - MDIC
A ovinocaprinocultura dada a sua importância sócioeconômica
para a região Nordeste carece de uma política de desenvolvimento que
priorize: a oferta contínua de carnes com elevado padrão de qualidade;
a competitividade de preços em relação aos produtos concorrentes;
a comercialização de carnes submetidas aos serviços de inspeção federal
ou estadual e ações voltadas para promoção comercial (prospecção de
mercado, adequação de produtos, marketing e publicidade, participação
em feiras nacionais e internacionais de alimentos, entre outras).
Uma estratégia de desenvolvimento semelhante ocorreu
no agronegócio da carne do frango, no qual a partir de uma política
de estímulo à produção associada à competitividade de preço, atingiu
crescimento de 178% no consumo per capita no período de 1992
a 2002, conforme dados apresentados na Tabela 2.
Tabela 2 - Consumo per capita anual de carne de frango no Brasil (1992
– 2002)
Ano
|
Frango(kg/hab.)
|
|
1992
|
16,8
|
|
1993
|
18,1
|
|
1994
|
19,2
|
|
1995
|
23,3
|
|
1996
|
22,2
|
|
1997
|
24,0
|
|
1998
|
16,3
|
|
1999
|
29,1
|
|
2000
|
29,9
|
|
2001
|
29,5
|
|
2002
|
29,9
|
Fonte:
União Brasileira de Avicultura (UBA)
Atualmente, de acordo com a política governamental,
o aumento das exportações é de suma importância como forma de reduzir
o “déficit” do balanço de pagamentos. Dentre os produtos agropecuários
com potencialidade no mercado externo, configuram as carnes caprina
e ovina. De fato, nos países que apresentam alta renda per capita,
é crescente a demanda por carnes, e o Brasil, pela condição favorável
para produção, poderia se transformar em importante exportador desses
produtos.
Finalmente, vale ressaltar algumas ações importantes
para estimular o crescimento da produção e comercialização das carnes
de caprinos e ovinos: organização dos produtores em associações e
cooperativas; capacitação tecnológica e gerencial; melhoramento genético
dos rebanhos; acesso à linhas de crédito
com juro diferenciados; certificação de qualidade das carnes; política
de marketing para as carnes de caprinos e ovinos e o combate aos locais
de abate clandestino.
2.2.
Valores Nutricionais das Carnes de Caprinos e Ovinos
As vantagens comparativas, em termos nutricionais, da
carne de caprino relativamente às demais carnes
consumidas no mercado, estão relacionadas aos baixos teores de calorias
e colesterol, a alta digestibilidade, além de elevados níveis de proteína
e ferro. Excluindo-se o componente cultural no hábito alimentar nordestino
e brasileiro no que se refere ao consumo de carne de caprinos e ovinos
– um aspecto mercadológico da maior relevância consiste no envelhecimento
da população do País, fato que resulta na busca natural por alimentos
mais saudáveis, fato que se coaduna com um potencial aumento no consumo
das carnes em consideração, sobretudo quando se considera
os fatores acima mencionados.
Sequenciando a presente linha de argumentação, é válido
salientar os resultados da pesquisa publicada pelo Dairy Goat
Journal, citado por Moreira et al. (1998), a qual demonstra
que dos cinco principais tipos de carnes consumidos no Brasil, a carne
de caprino é uma das que apresenta os mais baixos níveis calóricos
e de colesterol, apresentando em cada 100g (cem gramas) de carne assada
os seguintes quantitativos, conforme apresentado na Tabela 3, a seguir.
Tabela 3 - Componentes de diferentes tipos de carne.
|
Carne assada (100g)
|
Caloria
(kcal)
|
Gordura
(g)
|
Gordura Saturada
(g)
|
Proteína
(g)
|
Ferro
(g)
|
|
Caprino
|
131
|
2,76
|
0,85
|
25
|
3,54
|
|
Ovino
|
252
|
17,14
|
7,82
|
24
|
1,50
|
|
Bovino
|
263
|
17,14
|
7,29
|
25
|
3,11
|
|
Suíno
|
332
|
25,72
|
9,32
|
24
|
2,90
|
|
Frango
|
129
|
3,75
|
1,07
|
25
|
1,62
|
Fonte:
Dairy Goat Journal, Jan/Fev 1996
Moura (1998), estudando as características químicas
e físico-químicas da carne de caprinos SRD (sem raça definida) identificou
que a carne caprina é magra, tem pouca gordura subcutânea, intramuscular e extramuscular. Apresenta
boa textura, alto valor nutritivo, principalmente em proteína, minerais
e vitaminas, além de boa digestibilidade de seus constituintes.
2.3. Potencialidades do Mercado (Informações Disponíveis
e Projeções)
É fato comum nos mercados em fase de abertura a limitação de informações estatísticas
e/ou de pesquisas de dimensionamento do mercado. No caso da ovinocaprinocultura,
apesar de serem bastante reduzidas, algumas pesquisas foram realizadas,
possibilitando dimensionar o consumo de algumas cidades.
No presente contexto, pesquisa direta realizada em Fortaleza
pelo Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas do Estado do Ceará
- SEBRAE/CE (1998), estimou um consumo per capita anual
de 0,590kg para a carne ovina e 0,375kg para a carne caprina, totalizando
um consumo per capita anual de 0,965kg. Com base no consumo
per capita estimado em 1998 e considerando que o mesmo tenha
se mantido constante, estima-se que o consumo atual da cidade de Fortaleza
seja de aproximadamente 2.060 t.
Em trabalho de pesquisa desenvolvido por Moreira et
al. (1998), nas cidades de Juazeiro (BA) e Petrolina (PE), os resultados
obtidos revelaram um consumo per capita anual de 10,81kg em
Juazeiro e 11,73kg em Petrolina, representando um consumo atual em
torno de 1.880 t em Juazeiro e 2.500 t em Petrolina, considerando
a população atual destas cidades. Esse fato demonstra o elevado grau
de condicionamento cultural na alimentação do nordestino, no que se
refere ao consumo de carnes caprina e ovina. Se o consumo per capita
mostra-se significativamente inferior nos maiores
centros urbanos – as capitais, por exemplo -, isso se deve
bem mais a uma demanda reprimida (insuficiência na oferta), que propriamente
da necessidade de introdução de novos hábitos de consumo.
No Distrito Federal, o consumo anual de carne ovina,
em 1998, foi estimado em 300 t, conforme levantamento realizado pelo
SEBRAE/DF (1998), representando um consumo per capita anual
em torno de 0,150kg. A partir do consumo per capita estimado
e da população atual da cidade de Brasília estima-se que o consumo
atual da carne ovina seja de 310 t, dada a condição de que o consumo
per capita tenha se mantido constante. Este mercado se apresenta
como um centro consumidor bastante atrativo uma vez que grande parte
da população se origina do Nordeste, onde o consumo de carnes ovinas e caprinos é uma tradição, alem disso, em Brasília se
concentra uma das mais elevadas renda per capita do Brasil.
De acordo com estudo realizado pelo SEBRAE/RN (2000)
na cidade de Natal (RN), o consumo per capita, foi estimado
em 0,467kg para carne caprina e 0,430kg para a carne ovina, totalizando
0,897kg per capita ano. Projetando o consumo total com base na população
atual daquela cidade, estima-se que o mesmo atinja 330 t.
Finalmente, em estudo de projeção de oferta e demanda
potencial de carne de ovinos e caprinos no Nordeste, Campos
(1998) confrontou estimativas obtidas de oferta e demanda,
no período 1992 a 2000. As projeções estimadas para o ano 2000 no
Nordeste apresentam um déficit de 12,2 mil toneladas, conforme pode
ser observado na Tabela 4.
Tabela
4 - Balanço entre Oferta e Demanda Estimadas de
Carnes Caprina e Ovina para o Nordeste.
|
Ano
|
Nordeste
|
| |
Oferta
(1000t)
|
Demanda
(1000t)
|
Balanço
(1000t)
|
|
1992
|
36,4
|
49,0
|
-12,6
|
|
1993
|
37,5
|
49,8
|
-12,3
|
|
1994
|
38,4
|
50,5
|
-12,1
|
|
1995
|
39,2
|
51,2
|
-12,0
|
|
1996
|
40,0
|
52,0
|
-12,0
|
|
1997
|
40,9
|
52,9
|
-12,0
|
|
1998
|
41,8
|
53,7
|
-11,9
|
|
1999
|
42,6
|
54,6
|
-12,0
|
|
2000
|
43,4
|
55,6
|
-12,2
|
Os dados apresentados acima, obtidos através de pesquisas
diretas ou de projeções por modelos matemáticos, revelam a existência
de um mercado interno considerável para as carnes de caprinos e ovinos
no Nordeste. Não se tem informação de pesquisas de mercado destas
carnes nas demais cidades do Nordeste, no entanto, dado o crescente
interesse de supermercados, casas de carnes, restaurantes, hotéis
em comercializar estas carnes, bem como a corrida dos consumidores
por produtos saudáveis, considera-se que
a demanda apresentada por Campos (1998) estimada em 55,6 mil toneladas
para o ano 2000 parece ser bastante realista.
2.4.
Mercado Internacional
O mercado de carne tem se mostrado consumidor tanto
no Brasil como no Exterior. Assim, o abate mundial de caprinos e ovinos
em 1998 foi de 516 milhões de cabeças, verificando-se um aumento de
consumo de 22,1% no decênio 1989 a 1998. Os principais produtores
foram China, Índia, Nova Zelândia e Austrália (CNPq, 2001).
No mercado internacional observa-se amplas possibilidades para a colocação do produto
nacional, desde que atenda às exigências de qualidade, quantidade
ofertada, padronização dos produtos derivados da carne e continuidade
na oferta. Entre os grandes importadores destacam-se os mercado do
Oriente Médio, considerado um dos mais atrativos do mundo, devido
a fatores religiosos, hábito de consumo domiciliar, elevado poder
aquisitivo, limitação de área para exploração de atividades agropecuárias,
preços atraentes, entre outros. Os Emirados Árabes Unidos além de
importadores para consumo interno, também atuam como entreposto comercial,
atendendo aos vários países próximos do Oriente Médio e do Oceano
Índico. Além destes mercados, encontra-se no Brasil significativo
contingente populacional de descendência Árabe, habitando, sobretudo,
a região Sudeste. Segundo Barros (1998), a população brasileira de
origem árabe, atinge 8 milhões de habitantes, entre eles 2 milhões são muçulmanos.
Estes, poderão ser consumidores potenciais
das carnes de caprinos e ovinos produzidas no mercado interno, desde
que o processo de abate observe o método exigido.
A matança deverá seguir o ritual muçulmano conhecido
como “Método Halal”, no qual não é realizada a insensibilização. A
morte dos animais é conseqüência da operação de sangria realizada
com instrumento próprio utilizado neste método de abate.
Os Emirados Árabes Unidos também importam caprinos e
ovinos vivos de diversos países durante o ano todo. De acordo com
estatísticas elaboradas pelo setor comercial da Embaixada do Brasil
naquele país, em 1996, foram importados US$ 52,8 milhões em caprinos
e ovinos vivos pelos portos de Abu Dhabi, Sharjah e Dubai. A Austrália
foi o principal exportador com um total de US$ 33,7 milhões.
De acordo com Barros (1998), a
distância entre os portos de Recife (PE) e Dubai eqüivale a 8.072
milhas náuticas, enquanto a distância entre os portos da Austrália
por onde são exportados animais vivos para os Emirados Árabes varia
entre 8.000 e 8.800 milhas náuticas. Isto proporciona ao Nordeste
uma condição importante para torna-lo competitivo
com os animais exportados da Austrália. No entanto, para que isso
ocorra é necessário aumentar os rebanhos caprinos e ovinos, melhorar
a qualidade dos animais para comercialização e assegurar oferta contínua
de animais para exportação.
A importação de animais vivos aumenta consideravelmente
durante o “Aid al Adha”, ou feriado do sacrifício, que leva milhões
de muçulmanos a visitar a cidade de Meca e, por tradição religiosa,
devem sacrificar um animal a Deus. Enquanto, a importação de carne
aumenta durante o inverno (setembro a maio) e durante o mês sagrado
do “Ramadã”.
Não existe um padrão internacional generalizado para
a participação no mercado de carnes. Na Europa a carne suína é a mais
consumida, enquanto nos Estados Unidos é o frango. No Brasil e na
Argentina a carne bovina é a preferida, enquanto que na Nova Zelândia
a carne ovina tem o maio consumo per capita do mundo.
De acordo com os dados apresentados na Tabela 5, a relação
do consumo per capita mundial é bastante desigual, vemos que
em países ricos como os Estados Unidos e o Japão o consumo é de 0,5kg
e 0,6kg, respectivamente, mostrando que o consumo está intimamente
relacionado com o hábito alimentar e não com a renda da população
desses países.
Tabela 5 – Consumo per capita anual de carne de ovino em 1996.
|
País
|
Consumo
(kg)
|
|
Nova Zelândia
|
32,5
|
|
Austrália
|
16,6
|
|
Grécia
|
14,5
|
|
Arábia Saudita
|
13,0
|
|
Irlanda
|
8,4
|
|
Espanha
|
6,5
|
|
Reino Unido
|
6,3
|
|
Argentina
|
1,7
|
|
Brasil
|
0,7
|
|
Japão
|
0,6
|
|
Estados Unidos
|
0,5
|
Fonte:
SEBRAE/DF - Ovinocultura no Distrito Federal, Brasília, 1998
De acordo com dados da FAO (1995), foram comercializados
24,9 milhões de animais no mercado mundial, representando um valor
total de US$ 1,59 bilhões. As importações de animais vivos foram efetuadas
principalmente pelos países da Ásia, Europa e África, destacando-se
como principais importadores: Arábia Saudita (5,6 milhões de cabeças),
Itália (2,8 milhões de cabeças), Líbia (2,1 milhões de cabeças), França
(1,8 milhões de cabeças), Espanha (1,5 milhões de cabeças) e Emirados
Árabes Unidos (1,3 milhões de cabeças).
Em termos de carne, o grande mercado importador é representado
pelos países da Europa que, em 1995, adquiriram 411 mil toneladas,
seguindo os da Ásia com 213 mil toneladas.
3. Peles de Caprinos e Ovinos
3.1. Aspectos Gerais da Produção e Comercialização de
Peles de Caprinos e Ovinos no Nordeste
As peles de ovinos e caprinos do Nordeste são valorizadas
no mercado pela maior elasticidade, resistência e textura
apresentadas, prestando-se, assim, para um maior número de
produtos nas indústrias de vestuário e de calçados. No entanto, apesar
do reconhecimento de sua qualidade, as peles sofrem grandes depreciações
na comercialização, devido aos altos índices de defeitos que são decorrentes
de condições inadequadas do sistema de produção adotado, bem como
nas fases de abate, conservação e armazenamento.
O sistema de produção predominante no Nordeste consiste
na criação extensiva, sendo os animais expostos às condições adversas
da vegetação, ao arame farpado das cercas de contenção e, em alguns
casos, os animais são marcados na pele para facilitar a identificação.
Além destes fatores, algumas doenças provocam danos às peles, a exemplo
da miíase (bicheira), da sarna demodéfica e da linfadenite caseosa.
O sistema de abate de animais predominante no Nordeste
é feito de forma artesanal e com o mínimo de cuidado, prejudicando
a qualidade e aumentando a proporção de peles consideradas como refugo.
Os animais são abatidos em locais impróprios e com técnicas pouco
eficientes, deixando as peles sujas e manchadas. Do mesmo modo o uso
de facas e canivetes aguçados são também responsáveis por cortes e
perfurações prejudiciais.
A diversidade de raças exploradas,
ocasionam a produção de peles diferentes em tamanho, espessura
e textura, também contribui para a baixa qualidade da pele.
A comercialização de peles “in natura”, no Nordeste,
é realizada por intermediários que revendem o produto em postos de
compras pertencentes aos curtumes ou aos exportadores. Os curtumes
adquirem as peles dos produtores ou dos intermediários e, após o beneficiamento
as negociam com comerciantes do mercado interno e externo, ou com
a indústria manufatureira.
O baixo preço da pele praticado por intermediários,
em determinados períodos do ano, provoca insatisfação dos produtos
que, por sua vez, sentem-se desestimulados a adotar as tecnologias
capazes de melhorar a qualidade da pele.
De acordo com BNB/PDSORN (1999), 40% das peles processadas
são consideradas refugo, representando um baixo índice de aproveitamento.
Isto acarreta a desvalorização da pele “in natura”, impossibilitando
a indústria de incrementar maior remuneração ao valor da pele.
As indústrias de curtume instaladas no Nordeste se deparam
com problemas de ociosidade em sua capacidade operacional instalada.
Esta fato tem como causa principal, a reduzida
oferta de peles “in natura” com bom padrão de qualidade, caracterizando
a existência de uma demanda insatisfeita por essa matéria-prima. De
acordo com dados da Associação das Indústrias de Couro do Norte e
Nordeste, existe uma capacidade instalada para processar anualmente
12 milhões de peles, sendo atualmente processada em torno de 8
milhões por ano, o que provoca uma capacidade ociosa de aproximadamente
33%. Na região Sul, a produção de peles curtidas em 2000 de aproximadamente
1,8 milhões de peles e os curtumes funcionaram com uma capacidade
ociosa em torno de 50%.
As peles de ovinos e caprinos, industrializadas no Nordeste,
são exportadas preferencialmente na forma de wet-blue, que corresponde
ao couro curtido. Embora algumas indústrias realizem o processo de
acabamento, sendo produzidos vários e importantes tipos de couros,
tais como: marroquins, camurças, pergaminhos, algumas napas, pelica
etc, utilizados na produção de calçados, bolsas, vestuários, entre
outros.
Um
fator importante que poderá estimular o crescimento do mercado de
peles na região Nordeste consiste na instalação de fábricas de calçados oriundas das regiões Sul e Sudeste do país, atraídos
pelos incentivos fiscais concedidos pelos estados nordestinos, especialmente
o Ceará e a Bahia, poderá ser mais uma alternativa para a comercialização
de peles beneficiadas de ovinos e caprinos.
Em razão do elevado índice de defeitos observados nas peles de caprinos
e ovinos, apresenta-se como alternativa para o aproveitamento
destas peles o couro atanado, que é obtido pelo processo de
curtimento vegetal a base de tanino.
O
couro atanado é largamente utilizado em produtos artesanais (bolças,
calçados etc), assim como em produtos de montaria.
Outra
vantagem do curtimento vegetal consiste na reduzida carga de poluentes
dos resíduos gerados pelo processo de curtimento, quando comparado
ao curtimento a base de cromo para produção
do wet blue. Com isso, a implantação de curtume que busque a produção
de wet-blue exige maiores investimentos na construção da estação de
tratamento dos efluentes.
Finalmente, ressalta-se
algumas ações importantes para expandir a oferta das peles “in natura”
de caprinos e ovinos: organização dos produtores em associações e
cooperativas; capacitação tecnológica voltada para o manejo dos rebanhos,
processo de esfola, conservação e armazenamento das peles; maior remuneração
aos produtores; definição de preços diferenciados para aquisição das
peles, buscando estimular a melhoria da qualidade e o combate aos
locais de abate clandestino.
3.2.
Os Mercados Nacional e Internacional
Os principais países importadores das peles curtidas
e acabadas produzidas no Nordeste são a Itália, a Espanha, a Inglaterra,
Portugal e Estados Unidos. A pesada carga tributária e os custos de
exportação, componentes do chamado “Custo Brasil”, têm influído na
redução das margens de lucro dos exportadores brasileiros, embora
na atualidade isso não se constitua no principal entrave para o escoamento
da pele produzida no país, concorrendo muito mais para sua importação.
As exportações totais de peles beneficiadas
de ovinos e caprinos, ao longo do período 1992 a 2002, evoluíram
de forma diferenciada. De acordo com dados da Tabela 6, ocorreu um
crescimento das exportações de peles ovinas e um decréscimo das peles
caprinas. Este comportamento se deu em razão de uma queda na demanda
por nossas peles caprinas, provocada pela perda de competitividade para as peles oriundas
de países africanos, como Nigéria, Quênia, África do Sul, Etiópia
e Burkinafaso e países asiáticos a exemplo da Índia, China, Arábia
Saudita, Indonésia, do Irã, Nepal e Paquistão, que exportam a preços
mais competitivos e com padronização no tamanho das peles, aspecto
este sempre bem vistos pelo setor. Os principais estados exportadores
são a Bahia, o Piauí e o Ceará, que foram responsáveis, em 2002, por
aproximadamente 88% do total exportado.
Tabela 6 – Valor das Exportações de peles beneficiadas
(curtidas, recurtidas e acabadas) de caprinos e ovinos do Nordeste.
|
Ano
|
Valor exportado
|
| |
Ovinos
|
Caprinos
|
Total
|
| |
(US$ milhão)
|
(US$
milhão)
|
(US$ milhão)
|
|
1992
|
13,0
|
6,7
|
19,7
|
|
1993
|
13,0
|
6,0
|
19,0
|
|
1994
|
10,4
|
4,6
|
15,0
|
|
1995
|
9,4
|
3,5
|
12,9
|
|
1996
|
13,0
|
3,8
|
16,8
|
|
1997
|
12,0
|
2,2
|
14,2
|
|
1998
|
6,8
|
3,2
|
10,0
|
|
1999
|
7,1
|
1,8
|
8,9
|
|
2000
|
8,5
|
0,4
|
8,9
|
|
2001
|
10,0
|
1,6
|
11,6
|
|
2002
|
6,3
|
1,2
|
7,5
|
Fonte:
Análise de Informações de Comércio Exterior – ALICE/SERPRO.
Tendo em vista a capacidade ociosa das indústrias de curtume e a perda
de competitividade de nossas peles, em relação a preço e qualidade,
as indústrias passaram a realizar importações de peles curtidas (wet
blue), conforme pode ser observado na Tabela 7.
Os dados mostram que houve uma tendência na importação de peles caprinas
sobre as ovinas, demonstrando que o mercado interno está propenso
a demandar mais peles caprinas do que ovinas. As peles importadas
passam pelos processos de recurtimento e acabamento e, em seguida,
são exportadas.
Comparando os valores totais exportados e importados de peles caprinas
e ovinas, no período de 1992 a 2002, constata-se que a balança comercial
do setor teve superávit nos anos de 1992 e 1993, 1996, 1998 e 1999,
2001 e 2002. No último ano da série ocorreu um saldo positivo da ordem
de US$2,3 milhões.
Tabela
7 – Valor das Importações de peles beneficiadas (curtidas) de caprinos
e ovinos do Nordeste.
|
Ano
|
Valor exportado
|
| |
Ovinos
|
Caprinos
|
Total
|
| |
(US$ milhões)
|
(US$ milhões)
|
(US$ milhões)
|
|
1992
|
4,0
|
12,6
|
16,6
|
|
1993
|
5,0
|
9,8
|
14,8
|
|
1994
|
5,8
|
11,4
|
17,2
|
|
1995
|
11,4
|
9,3
|
|