INFLUÊNCIA DA COR DA PELAGEM NA QUALIDADE DA PELE CAPRINA/ OVINA CURTIDA AO CROMO
João Bosco de M. Coêlho* João Medeiros Lins** Alexandre Bezerra Alves*** Isadora Lima Soares****
1 INTRODUÇÃO
O fenótipo ou característica externa dos animais, como cor dos anexos da pele (escamas, penas, pêlos etc.), sempre causou fascínio aos criadores e colecionadores, principalmente os de maior poder aquisitivo ou os chamados criadores por "paixão". Para eles, o padrão externo se sobrepõe às potencialidades genotípicas ou zootécnicas do animal. Dessa forma, para esses criadores, a cor da pelagem é um fator decisivo na escolha do animal ou raça a ser criado.
A pele de caprinos e ovinos, dependendo do peso do animal e da flutuação do mercado, pode representar até 25% do valor do animal. Para a região Nordeste que detém em torno de 93% do rebanho caprino e 50% do rebanho ovino nacional, isso representa uma grande fonte econômica, sobretudo para o sertão onde se concentra a maior parte dos rebanhos.
A pele caprina ou ovina após a esfola é constituída da pelagem, camada de pêlos que recobre a pele e traz a tonalidade para caracterizar a cor do animal, e da pele constituída de epiderme ou flôr e da derme ou carnal.
A pelagem apesar de não agregar nenhum valor econômico para a pele, salvo quando pela beleza, a pele é curtida ao pêlo, ou seja, sem a retidada do pêlo, é justamente a pelagem quem primeiro recebe as interações ou impactos com o meio externo, como sol, temperatura, umidade, ataque de ectoparasitas, atritos em geral etc.
* Med.Veterinário/Professor - UPE/FFPP; **Tecnólogo em curtimento - Curtume Moderno; *** Técnico em Curtimento - Primapeles; **** Ténico Agrícola - Primapeles
A pele é considerada por alguns fisiologistas, como o maior órgão do corpo de um animal, sobretudo para os vertebrados e como a pelagem representa o espelho da pele a receber os primeiros impactos e interações com o meio externo, é justificável uma investigação sobre a influência da cor da pelagem na qualidade da pele.
2 REVISÃO BIBLIOGRÁFICA
O rebanho caprino/ovino no Brasil, apesar de bastante expressivo, conforme TABELA 1, quando comparado com outros países na produção de peles, levando-se em conta a extenção territorial, revela nesse contexto, ou um atraso zootécnico ou de acompanhamento estatístico ou mesmo ambos, pois conforme a revista "O Berro" nº 52, enquanto a Nigéria, país desértico e com extensão territorial bem inferior, produz 19-22 milhôes de unidades, o Brasil produz apenas 7 milhões.
TABELA 1 – Efetivo dos rebanhos/ Brasil (1994-2000)
Fonte: Pesquisa Pecuária Municipal (PPM) - (IBGE).
Obs.: Este quadro mostra também uma redução dos rebanhos a nível nacional nesses 7 anos, no entanto com uma recuperação do rebanho caprino nos últimos 4 anos.
Segundo a revista "O Berro" nº 41, a raça ovina Santa Inês, no seu padrão racial de pelagem, é permitida tanto as cores únicas como branco, vermelho e preto como também a multicolorida como a malhada, tartarugada, lavrada, chitada etc., como também as raças caprinas como a Mambrina e Anglonubiana que também aceitam várias tonalidades, oferecendo desta forma um elenco de opções para os criadores interessados em selecionar pelagem.
Diante destas múltiplas opções, muitos criadores passaram a selecionar pelagens, obedecendo ao seu gosto particular e também a defenderem esse padrão como sendo superior as demais, surgindo aí controvérsias e discursões em exposições e feiras, principalmente com relação à pelagem negra.
Pesquisadores como Lauprecht, Prawochensky, Esskuchen apud Caprinet, afirmam que não há correlação entre coloração da pelagem e a produtividade, desde que os animais estejam na mesma região climática. Por outro lado, Mc Dowel (1974) apud Caprinet revelou em suas pesquisas em bovinos, que a pelagem branca absorve 50% menos raios solares que a pelagem preta e que com relação à reflexão dos raios solares, a pele branca reflete 6 vezes mais que a preta. Aí surge a dúvida, será que essa maior absorção e menor reflexão dos raios solares pelos animais de pelagem preta não interferem na sua produtividade ou desempenho e qualidade da pele? Esta questão somente a pesquisa revelará.
Contrariando as idéias dos pesquisadores que afirmam que nas mesmas condições climáticas não haverá correlação entre coloração da pelagem e produtividade, esqueceram eles dos ectoparasitas, pois bovinos de pelagem preta atrai 20 vezes mais carrapatos que os de pelagem branca (CAPRINET 2003), o mesmo ocorre com a mosca do chifre, onde os animais de pelagem escura são de longe mais atacados.
Sabe-se também através da prática de campo que caprinos de pelagem preta, tendem a ter uma carga de piolhos superior aos de pelagens claras. Evidentemente um animal parasitado terá dificuldades de competir com um não parasitado. A espoliação provocada pelos ectoparasitas, estressa o animal e reduz as defesas orgânicas, tornando-o vulnerável a outras doenças como também reduz o ganho de peso. O prurido (coceira) provocado pelos ectoparasitas, além de interferir no pastejo dos animais, obriga-os a se coçarem com freqüência em obstáculos, aumentando com isso, o risco de arranhões, calosidades e descamação da pele.
Por outro lado, segundo Blood & Henderson (1978), as células epiteliais e dos anexos (pêlo, lâ etc.), têm um alto conteúdo de enxofre ligado a aminoácidos e, se não estão disponíveis na dieta, estes serão retirados das células de outros tecidos resultando em sério desgaste deles. Como a maioria dos criadores de caprinos e ovinos não mineralizam regularmente seus rebanhos esse problema não só compromete o desempenho dos animais como também a qualidade de suas peles.
O desprendimento normal do pêlo e da lã é um processo constante. Ocorrem alterações quando ossila a temperatura do meio ambiente. Há um maior crescimento em temperaturas frias e um menor crescimento e maior desprendimento com o aumento da temperatura, (BLOOD & HENDERSON, 1978), é muito provável que a coloração da pele e da pelagem exerça influência nesse sentido.
Não está ainda bem definido se estas variações na velocidade de crescimento do pêlo e da lã são devido aos efeitos de variações da temperatura, de períodos de luz solar mais longo ou de comprimento de onda luminosa. Há também a possibilidade de ocorrer variações no suprimento sangüíneo capilar da pele ou variações na qualidade nutritiva do sangue ao pêlo em função das variações climáticas, (BLOOD & HENDERSON, 1978). Sabe-se por experiência de campo que caprinos com pêlos longos são mais suscetíveis a pediculose, e que por sua vez, irá interferir não só no desempenho produtivo como também na qualidade da pele.
Padilha & Siqueira (1981) citando vários pesquisadores, apontaram como principais causas de defeitos em peles, as falhas na maneira de esfolar, espichar e preparar, arranhões, picadas de insetos e parasitas, calosidades, furos, fermentações, secagens excesssivas, furos e cortes provenientes da esfola, marcas de fogo e sangrias insuficientes, dando como conseqüência baixos índices alcançados nos mercados nacional e internacional.
Com a mudança de conservação da pele verde que antes era através da secagem à sombra ou ao sol para a salga, alguns problemas foram sanados, como espichamento mal feito, secagem excessiva, manchas e fermentações nos locais de contato com as varas etc (PADILHA & SIQUEIRA 1981), contudo segundo técnicos de curtumes, outros problemas surgiram com a conservação pela salga como: salga insuficiente ou irregular, granulação do sal, demora excessiva para o curtimento, aderência de terra e sugidades, fermentação através do crescimento de microrganismos halofíticos ou halotolerantes etc.
Dos defeitos citados, apenas os relacionados à presença de ectoparasitas, como arranhôes, descamação da pele, espessura e calosidades provocadas pela coceira, parece ter sua incidência influenciada pela coloração da pelagem, contudo foi essa dúvida que motivou a realização desta pesquisa. Sabe-se que para a Zootecnia, a coloração da pelagem é indiferente, serve apenas para caracterizar os animais em padrões raciais, no entanto para os curtumes não se têm informações sobre sua relação com a qualidade da pele.
3 MÉTODOS
Foram escolhidas ao acaso 207 peles caprinas e 196 peles ovinas que comporam 4 lotes, sendo 105 peles caprinas de pelagem predominantemente negras e 102 predominantemente claras; 100 peles ovinas predominantemente negras e 96 predominantemente claras. As peles foram curtidas ao cromo, "wet blue" e avaliadas quanto aos defeitos encontrados, como também foi realizada uma classificação para permitir uma avaliação econômica de cada lote. Os trabalhos de curtimento e avaliação foram realizados no Curtume Moderno S/A em Petrolina – PE, seguindo a rotina do estabelecimento, nos meses de maio e junho de 2003.
TABELA 2 – Classificação por qualidade para peles caprinas e ovinas em "wet blue" de diferentes tonalidades e o respectivo valor econômico.
Caprina
Ovina
Negra
TABELA 3 - Valor das peles curtidas ao cromo (wet blue) em R$ por categoria em jul/2003.
Fonte: PRIMAPELES, em jul/2003
TABELA 4 - Defeitos predominantes encontrados em peles caprinas e ovinas de diferentes tonalidades da pelagem, curtidas ao cromo.
Com relação a classificação, houve diferença entre a pelagem negra e a branca tanto em caprinos quanto em ovinos no entanto, a diferença para as peles ovinas foi mais significativa, contudo, economicamente a diferença foi mais significativa para as peles caprinas conforme TABELA 2.
Em se tratando de defeitos, os riscos provenientes de vegetação aparece mais em peles caprinas devido a sua preferência por pastagem nativa e ao seu hábito trepador em arbustos. Com relação as peles ovinas, a grande incidência de riscos de vegetação nesse lote, supõe-se se tratar de ovinos deslanados criados em pastagem nativa.
Arranhões provenientes de arame farpado, já é considerado o principal defeito que influencia a desvalorização das peles em ambas as espécies. Aparentemente não deveria existir correlação entre côr da pelagem com arranhões por arame farpado, contudo, como demonstrado na TABELA 4, encontrou-se diferenças significativas entre pelagem negra e branca para ambas espécies para esse tipo de defeito, provavelmente se deve à maior absorção dos raios solares pela pelagem preta influenciando desta forma a cicatrização, fato já conhecido em medicina humana, onde pessoas que expõem cortes cirúrgicos ao sol após a intervenção, a cicatrização deixa marcas mais evidentes.
Sobre a fermentação os dados obtidos nessa pesquisa não tiveram correlação com a cor da pelagem. Sabe-se que é um defeito mais comum em épocas com temperatura elevada e quando as peles demoram muito a entrar no processo de curtimento. Neste experimento as peles caprinas negras e as ovinas claras apresentaram maior ocorrência.
Os defeitos relacionados a ectoparasitoses como a sarna (bexiga) e o piolho (pediculose) são mais freqüentes em caprinos, onde os de pelagem negras são bem mais afetados, fato já bem conhecido de técnicos e criadores. Os ovinos geralmente são atacados somente quando coabitam pastagens ou currais com os caprinos.
O repêlo é um problema de curtimento que ocorre quase que exclusivamente em pele ovina de pelagem negra e é em função desse problema que para as peles ovinas exigem uma concentração mais elevada de sulfeto de sódio para a retirada do pêlo, sendo com isso considerada uma pelagem antiecológica, devido a demandar maior carga de poluentes durante o curtimento. A pele com esse problema, em alguns casos, torna-se imprópria para o uso ao natural além de cair de categoria durante a classificação.
5 CONCLUSÃO
A qualidade das peles caprina e ovina varia com a raça, idade, sexo, estado nutricional, região geográfica, clima, época do ano etc., e como ficou demonstrado nesse pequeno ensaio, também pela cor da pelagem. Outrossim, faz-se necessário uma investigação mais rigorosa para se obter resultados mais conclusivos.
Acredita-se também, que a influência da cor da pelagem se estenda também ao desempenho zootécnico do animal e para tando há necessidade de ser investigado. Apesar de preliminares, com esses resultados parecem ser sem sentido, a seleção de animais somente por estes possuirem pelagem negra.
6 AGRADECIMENTOS
Agradecemos ao Curtume Moderno S/A, pela permissão da realização desse trabalho em suas instalações e ao Classificador Sr. Francisco de Assis Pereira pela maneira gentil com que nos ajudou.
7 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
A PELE e a pelagem no Santa Inês – Parte I e II. O Berro, n. 41, jan. 2001. Disponível em <http://www.caprinet.com.br>, Acesso em 4 de maio 2003.
A PELE e a pelagem no Santa Inês – Parte III. Disponível em <http//:www.caprinet.com.br>, Acesso em: 4 de maio 2003.
BLOOD, D. C.; HENDERSON, J. A. Medicina Veterinária. 4 ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan. 1978, 871 p.
IBGE. Pesquisa pecuária municipal. Disponível em <http//:www.ibge.gov.br> , Acesso em 15 de jun. 2003.
PADILHA, T. N.; SIQUEIRA, K. M. M. de. Classificação das peles caprinas e ovinas de algumas regiões do Nordeste do Brasil curtidas ao cromo. Petrolina, PE: EMBRAPA – CPATSA, 1981. 14p. (EMBRAPA-CPARSA. Documentos; 15).